InícioEconomiaGramado e CanelaRacionamento de água e elevação de custos preocupa agricultores de Canela

Racionamento de água e elevação de custos preocupa agricultores de Canela

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CANELA – A Reportagem do Jornal Integração esteve na terça-feira (11) visitando uma propriedade que tem plantação de milho e enfrenta dificuldades por causa da seca. O proprietário Romeu Port, agricultor do Canastra Alta, está 37 anos morando na localidade. Já sua esposa Gordélia nasceu em Canela e pretende ficar no interior o resto de sua vida. O casal conta, ainda, com a aposentadoria e tem três filhos adultos, que são professores, mas ajudam com a lida do campo. “Tenho orgulho de ser agricultor, mesmo as coisas ficando difíceis. A gente gosta do que faz, mas este ano não está muito fácil, a seca chegou no mês de outubro e as plantas não nasceram direito. Começou a vim pragas. Os milhos não nasceram direito, o feijão vai dar bem menos. É o primeiro ano que não posso usar a irrigação, para poder dar água para os porcos e galinhas. A invernada ficou seca, o gado precisa vir até a casa tomar água. Eu fiz alguns reservatórios, estamos mantendo”, relatou o agricultor.

O casal de agricultores canelenes, Gordélia e Romeu Port .
Crédito: Lucas Brito

Uma das principais preocupações de Romeu é a plantação de milho, que além da falta de chuvas as sementes ficaram mais caras. Os insumos triplicaram, segundo o agricultor, passaram a custar mais de mil reais, sendo que o valor anterior era em torno de R$ 300. “Os milhos, quando chove, temos que colocar a uréia. A chuva não vinha e quando vinha, as vezes faltava a uréia. Ai chegou a sapeca (queima de folhas baixeiras), rachaduras na terra e apareceu a cigarrinha. A cigarrinha é uma praga nova que deixa os milhos doentes. Acho que 40 ou 50% da plantação já se foi, mesmo tendo gasto mais com produtos”, disse Romeu.

Romeu pagava o saco de milho em torno de 80, hoje custa R$110. Ainda assim, o que mais está pesando é o custo dos insumos (fertilizantes, adubos, uréia, venenos), que triplicaram. Com a previsão sem volta de prejuízos que já somam a metade de sua produção, o agricultor demonstra preocupação, “Não vai ser fácil, o colono se não for forte, não sei se consegue dar a volta”. Em 2021, Romeu vendeu 10 mil quilos de milho seco. “Ano passado sobrou, mas geralmente é para uso. Eu tenho 20 cabeças de gado, tenho porco, a gente faz silagem. O milho é pra tudo. É o principal da agricultura. Mas quem mora na colônia precisa ter de tudo um pouco. Costumamos vender na feira também”.

A propriedade de Romeu no Canastra Alta tem 55 hectares, sendo parte destinado o plantio do milho. Antes da estiagem, o agricultor produzia 250 sacos, agora com a seca, a expectativa caiu para a metade. (Créd. Lucas Brito/JIH)

SITUAÇÃO EM CANELA – A partir de um relatório atualizado sobre a estiagem, feito pelo técnico do escritório da EMATER em Canela, Alexandre Meneguzzo, 250 famílias canelenses dependem de atividades agropecuárias, de forma total ou parcial. Ainda que os dados sejam do último censo, a população rural de Canela é equivalente a 10%, em torno de 3,5 mil pessoas. Quanto as chuvas, o volume em 2021 ficou em média 167 mm, a metade do esperado. O déficit de precipitação foi registrado no último dia 4.  “O caminhão pipa segue servindo água potável a mais de 120 famílias do meio rural, com concentração de serviços em Bugres, Rancho Grande, Morro Calçado e Amoreiras.  As lavouras podem aumentar as perdas relatadas se persistir o fenômeno climático”, disse Meneguzzo.

Meneguzzo informou, ainda, que entre os esforços está colocar em operação a extensão de rede comunitária Bugres, Rancho Grande e Morro Calçado. A EMATER, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais e a diretoria da associação comunitária já elaboraram Regimento Interno para funcionamento da associação. “A Prefeitura está adquirindo tubulação e conferindo o projeto técnico para implementação da obra, o secretário Savi (Obras e Agricultura) está especialmente empenhado em realizar isso até para diminuir o trânsito do caminhão pipa”, comentou o técnico da EMATER.

Em Canela, destacam-se a produção de milho, com área de 215 hectares; feijão, 29; aipim, 16; frutas cítricas, 23; maçã, 30; hortaliças, 5; frutas em geral, 11 hectares. Ainda se registra uma área 500 hectares de eucalipto, 4500 de Pinus eliotis, 800 de acácia-negra.

Com prejuízos que somam R$ 6.138.000 no total das culturas, a maçã está com o maior percentual de perda, 75%, o equivalente a R$ 2.362.500. Entre os produtos com perdas em Canela, o feijão registra 50% (R$ 118 mil) e o milho, 30% (grão, R$ 558 mil) e 25% (silagem, R$ 70 mil). Já o Bovinos de Corte, 35 %, o valor de perda chega a R$ 1.372.635,25.

Técnico do escritório da EMATER em Canela, Alexandre Meneguzzo. (Crédito: Divulgação)

EXPLICAÇÃO TÉCNICA DA EMATER

O fenômeno da seca, que ocorre já nos dois últimos anos durante o verão tem provocado sinais de alerta para a agricultura e para moradores da área rural. Infelizmente, pela sucessão dos períodos secos, as reservas nos mananciais não se “reforçam” o suficiente e diminuem de volume rapidamente quando se fica um período maior sem chuvas. Em 15 a 20 dias, já se observa esta redução. Além disso, os movimentos globais tem firmado para este ciclo de 15 anos para o RS, períodos de chuvas torrenciais, intensas seguidos de longos períodos sem chuva. Este fenômeno diminui a capacidade de retenção de água no solo, reduzindo a vazão das fontes superficiais.

Em Canela, as chuvas são mais frequentes nas partes altas – meio urbano e alguns pontos ao longo da RS 235. Esta realidade é diferente nas demais comunidades, as quais não recebem a mesma intensidade de chuvas. Várias técnicas estão sendo sugeridas aos agricultores para uso imediato e para futuro, visando diminuir a perda de umidade do solo, como plantio direto correto, uso de plantas de cobertura de solo, plantio antecipado, adoção de cisternas para armazenagem de água, além da própria irrigação quando possível. Mas este trabalho precisa ser intensificado ao longo dos anos. Quanto mais autônoma a propriedade rural em relação à água, melhor. Os efeitos na fruticultura tendem a se manifestar também nas próximas safras em virtude da perturbação fisiológica produzida pela falta de chuva durante o período de diferenciação floral (atitude da planta que programa a safra seguinte ainda na safra anterior). Isto significa que deverão haver perdas também na safra 2022/2023.

ESTIAGEM NO RS – De acordo com dados da Defesa Civil do Rio Grande do Sul, até o momento 231 municípios gaúchos registraram Situação de Emergência (SE). Destes, 209 decretaram. Apenas 47 tiveram SE reconhecida pela União. No RS, 42 cidades tiveram decreto homologado. O prazo de validade de um decreto de Situação de Emergência é de 180 dias. Gramado e São Francisco de Paula decretaram SE no dia 4 de janeiro, ambos os municípios aguardam reconhecimento e homologação. Já em Canela, o decreto ainda não foi emitido. De acordo com a Emater, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural (Comder) está sendo reestruturado e, em princípio, os subsídios para decretar a SE existem.

Texto: Lucas Brito – [email protected]

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