CANELA – A sessão da Câmara de Vereadores desta semana foi marcada por um pronunciamento do representante do Aeroclube de Canela, Marcelo Mallmann Sulzbach, durante o espaço da Tribuna do Povo. Com experiência de 26 anos na aviação, sendo 15 deles na aviação comercial, inclusive atuando como comandante no Brasil e no exterior, Sulzbach utilizou argumentos técnicos para afirmar que o aeroporto de Canela não comporta operações regulares de voos comerciais, conforme anunciado pela Infraero quando assumiu a gestão do terminal.
Ao longo da explanação, Marcelo destacou que o Aeroclube de Canela não é contrário ao desenvolvimento do aeroporto ou da cidade, mas afirmou que existe uma diferença entre desejo político e viabilidade técnica.
“O Aeroclube é totalmente a favor do desenvolvimento da cidade e do desenvolvimento aeronáutico. A gente não é contra ter um aeroporto desenvolvido. É simplesmente uma questão técnica e de fato.”
Segundo ele, de todas as melhorias prometidas pela Infraero desde a enchente de 2024, apenas o alargamento da pista foi executado — e mesmo assim ainda sem homologação oficial nos sistemas aeronáuticos. Conforme relatou, o aeroporto continua registrado com apenas 18 metros de largura operacional.
Sulzbach listou uma série de exigências técnicas necessárias para que um aeroporto possa operar voos comerciais regulares, como pista maior, cercamento, iluminação, equipamentos de navegação, estação meteorológica, sistema de controle de tráfego aéreo, terminal adequado e estrutura de combate a incêndio.
“O que foi feito? Alargamento da pista. Pintura da pista. E acabou. O resto ficou na promessa. Nenhuma empresa em sã consciência iniciaria uma operação aqui.”
Ele explicou ainda que as características geográficas e climáticas de Canela tornam a operação aérea ainda mais complexa. Entre os fatores citados estão altitude, relevo, temperaturas e a frequente ocorrência de neblina, especialmente no inverno. Segundo Marcelo, mesmo aeroportos mais estruturados, como o de Caxias do Sul, já apresentam dificuldades operacionais.
Na comparação apresentada na tribuna, Caxias possui cerca de dois mil metros de pista asfaltada e 1.600 metros efetivamente utilizáveis, enquanto Canela dispõe de aproximadamente 1.264 metros de área operacional utilizável, cercada por barrancos e limitações geográficas.
Com base em sua experiência na aviação comercial, Sulzbach afirmou não acreditar na implantação de voos regulares no município sem grandes desapropriações e obras estruturais de enorme impacto urbano.
“Esses voos comerciais não vão acontecer se não forem feitas obras babilônicas de desapropriação em massa para alongar a pista.”
Além das críticas à viabilidade operacional do aeroporto, Marcelo também chamou atenção para a situação do Aeroclube de Canela, entidade que existe há 76 anos e que, segundo ele, corre risco de fechamento.
Durante a fala, explicou que os aeroclubes exercem uma função pública de formação aeronáutica e que historicamente atuam como escolas de aviação sem fins lucrativos. O Aeroclube de Canela já formou pilotos que hoje atuam em companhias nacionais e internacionais, incluindo comandantes da Emirates.
Sulzbach relatou ainda dificuldades para renovar a permanência do aeroclube no hangar que ocupa no aeroporto. Segundo ele, após assumir a gestão do terminal, a Infraero passou a cobrar valores considerados inviáveis para utilização da área.
O representante afirmou que o valor do aluguel exigido seria até 600% maior do que o cobrado de outros espaços no aeroporto, o que, na avaliação dele, ameaça diretamente a sobrevivência da instituição.
Ao defender a permanência do aeroclube, Marcelo ressaltou o papel social desempenhado pela entidade, especialmente durante as enchentes de 2024, quando o espaço serviu como centro de distribuição de alimentos e apoio logístico para equipes de saúde.
Ele também alertou para a crise nacional dos aeroclubes, afirmando que mais de 30 entidades do tipo estão em risco no país, o que poderá gerar falta de pilotos nos próximos anos.
Segundo Sulzbach, os aeroclubes não podem ser tratados como empresas privadas comuns, já que possuem função educacional, cultural e pública reconhecida pelo Código Brasileiro de Aeronáutica.
A manifestação repercutiu entre vereadores e público presente na sessão, reacendendo o debate sobre o futuro do aeroporto de Canela, os investimentos da Infraero e a preservação do Aeroclube como patrimônio histórico e aeronáutico do município.









