O secretário do dinheiro [da Fazenda] de Canela, Luciano Melo, disse ao Integração que o decreto de limitação de empenhos é normal e que sua edição demonstra que existe gestão. Verdade. Fazer gestão é, entre outras coisas, cuidar para não gastar mais do que se arrecada. É uma regra simples, quase óbvia, mas que muitas vezes parece ser esquecida na administração pública.
Agora, este fato também traz diversas outras mensagens embutidas e embasa aquele velho dito popular: “o papel aceita tudo”.
O orçamento de 2026 foi projetado com uma arrecadação que, na prática, não está se confirmando. Segundo o secretário, a arrecadação está R$ 17 milhões acima da registrada no mesmo período do ano passado, mas, ainda assim, está R$ 38 milhões abaixo do que havia sido previsto no orçamento. Ou seja, arrecadar mais do que no ano anterior não significa necessariamente que se esteja arrecadando o suficiente para cumprir aquilo que foi colocado no papel.
E aí está uma questão importante. Escrever no orçamento aquilo que se deseja arrecadar é uma coisa. Arrecadar aquilo que foi escrito é outra, bem diferente.
Durante todo o primeiro ano desta gestão, em 2025, ouvimos muitas vezes a explicação de que estavam “obrigados” a trabalhar com um orçamento “deixado” pelo antecessor. Ora, esta situação, surgindo agora no meio do mandato, derruba um pouco esse discurso tão utilizado. O orçamento não é apenas uma herança que se recebe e executa. É também uma peça de planejamento, que precisa ser acompanhada, revisada e, quando necessário, corrigida.
O fato é que dinheiro não dá em pé de laranja. Ele precisa ser gerado. E dinheiro, na economia real, é produzido pela atividade econômica: pelo trabalho, pelo comércio, pela indústria, pelos serviços, pelo empreendedorismo, pelos investimentos. Quando a economia produz menos, ou quando aqueles que têm dinheiro preferem deixá-lo rendendo no mercado financeiro em vez de colocá-lo em algum empreendimento, a consequência aparece em toda a cadeia.
E o Brasil está vivendo justamente um período em que a elevadíssima taxa Selic oferece uma alternativa extremamente atraente para quem tem capital. Para que correr o risco de empreender, contratar, investir e produzir se o dinheiro parado proporciona uma remuneração tão elevada?
É nesse ambiente que Canela precisa administrar seus recursos.
O decreto não vai fechar a Prefeitura. Não vai parar a administração municipal. Mas vai frear. E frear significa escolher. Obras que ainda não começaram poderão esperar. Despesas de custeio e investimentos terão de ser revistas. Horas extras, viagens, eventos, publicidade e outras despesas passam a sofrer limitações. Até mesmo contrapartidas para projetos vinculados a recursos extraordinários, quando ainda não comprometidas, entram no rol das despesas que podem ser restringidas.
É a realidade batendo à porta.
E talvez seja justamente essa a principal mensagem deste episódio: não basta fazer orçamento; é preciso fazê-lo caber na realidade.
O secretário Luciano Melo está fazendo o que lhe cabe ao acionar o freio antes que a situação fique pior. Gestão também é isso. Melhor reduzir a velocidade enquanto ainda há estrada do que continuar acelerando até faltar combustível.
Mas não podemos deixar de olhar para o outro lado. Se a Prefeitura precisa frear agora, com a arrecadação acima da do ano passado, mas R$ 38 milhões abaixo da previsão, alguma coisa estava errada na conta original.
O papel realmente aceita tudo. A conta bancária, não.
E, pelo visto, serão longos estes últimos quatro meses — ou último terço — de 2026 dentro da Prefeitura de Canela. O desafio será atravessá-los mantendo os serviços essenciais, honrando os compromissos já assumidos e, principalmente, sem criar novas despesas para as quais não exista dinheiro.
No fim das contas, gestão pública é exatamente isso: fazer o possível com o dinheiro que existe, e não com aquele que gostaríamos que existisse.










