Os números divulgados pela Prefeitura de Canela sobre o Refis 2026 são expressivos. Em poucos meses, 634 contribuintes renegociaram mais de R$ 7,2 milhões em débitos com o município. Mais de R$ 1,5 milhão já retornou aos cofres públicos. Ao mesmo tempo, Gramado encaminha uma mudança na legislação para deixar de ajuizar cobranças de dívidas inferiores a R$ 1 mil, por entender que o custo do processo judicial é maior do que o próprio crédito.
À primeira vista, são assuntos distintos. Mas, na verdade, ambos retratam o mesmo Brasil: um país em que empresas, comerciantes e famílias têm cada vez mais dificuldade para fechar as contas.
Essa percepção foi reforçada, nesta semana, pelo presidente do Sindilojas Região das Hortênsias, Sandro Schmidt, em entrevista ao Jornal Integração. Ao analisar o comportamento dos consumidores, ele fez uma observação que talvez seja a mais preocupante de toda a conversa: “As pessoas estão parcelando o supermercado.” Para ele, quando uma família precisa financiar a compra de alimentos, é sinal de que a economia perdeu o equilíbrio. E foi além: alertou que, ao parcelar comida em várias prestações, cria-se uma bola de neve financeira difícil de ser interrompida.
É uma constatação que merece reflexão. Durante muitos anos, o parcelamento foi associado à compra de um automóvel, de um eletrodoméstico ou de um bem durável. Hoje, ele chega ao carrinho do supermercado. E, quando a alimentação passa a depender do crédito, o orçamento familiar deixa de ser administrado e passa a ser sobrevivido.
Não por acaso, cresce a procura pelos programas de recuperação fiscal. O Refis de Canela demonstra que a inadimplência não está restrita a um pequeno grupo. Ela alcança trabalhadores, profissionais liberais, empresários e comerciantes. Não existem mais apenas pequenos ou grandes devedores. Existe uma sociedade inteira pressionada pelo aumento do custo de vida.
Os juros elevados, a dificuldade de acesso ao crédito barato, a carga tributária e o encarecimento das despesas básicas formam um ambiente que reduz o poder de compra e obriga milhões de brasileiros a adiar pagamentos ou renegociar dívidas. Enquanto isso, o poder público continua ampliando seus gastos, sem transmitir à população a mesma preocupação com eficiência e contenção que exige de quem paga impostos.
O resultado aparece nos números e nas ruas. Municípios criam Refis para recuperar receitas. O Judiciário deixa de ser acionado para pequenas dívidas porque a cobrança custa mais do que o débito. Comerciantes observam consumidores parcelando até alimentos. E famílias trocam planejamento por prestações.
O Brasil não pode considerar isso normal. Quando o cidadão financia a comida de hoje para pagar com a renda de amanhã, não estamos diante apenas de um problema financeiro. Estamos diante de um claro sinal de empobrecimento da população, um alerta que deveria preocupar muito mais do que os indicadores frios da economia.










