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Chegada do trem a Gramado comemora 100 anos de história

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MARTINA BELOTTO

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GRAMADO – Um dos grandes marcos históricos para o desenvolvimento da região foi a chegada do trem.. Amanhã, dia 1º de junho, completa 100 anos da inauguração da estação ferroviária do bairro Várzea Grande. Durante os 44 anos seguintes, a ferrovia foi elo de extrema importância para as relações econômicas e sociais de Gramado. Entre 1919 e 1963, o trem foi um dos únicos meios de locomoção, tanto para moradores quanto para os primeiros visitantes que chegavam  à região.

A primeira linha ferroviária construída no Rio Grande do Sul, da qual Gramado fazia parte, foi a sétima instalada no país. Em 1903, foi inaugurada parte dessa linha, que ligava Novo Hamburgo a Taquara. Depois disso, foram construídas outras estações, ligando Taquara até Canela. A estação da Várzea foi inaugurada em 1919, a do Centro de Gramado chegou em 1921 e a de Canela foi inaugurada oficialmente em  agosto de 1924.

Estações de trem da região:

Taquara

Igrejinha

Três Coroas

Sander

Agente Hallan (cerca de 13 quilômetros antes da estação da Várzea Grande)

Maquinista Maura (próximo à linha Carahá)

Várzea Grande

Gramado

Canela

Em seu livro O Cheiro do Vinho, Gilnei Casagrande destaca a importância da linha ferroviária para o desenvolvimento de Gramado. “A construção da estrada de ferro que ligou Taquara a Canela por mais de quarenta anos foi fundamental para o desenvolvimento do turismo na região. A hospitalidade, a gastronomia, somada à paisagem que lembrava a Europa, gradativamente se tornaram os principais atrativos. Tais estratégias foram suficiente para atrair o veranista. Essa pode-se dizer que foi a primeira fase do turismo em Gramado”.

Conforme registros, o trem passava pela região de Gramado perto do meio dia. “Muitos testemunhos indicam que o trem servia de relógio para a hora do almoço. Por volta de 11h ele despontava na linha do Moleque, e os colonos sabiam que era hora de largar a lavoura”, comenta o historiador Wanderley Cavalcante.

Um dos grandes destaques da memória ferroviária de Gramado é o rabicho, obra de engenharia ferroviária única na América do Sul. Consistia em um desvio feito a um obstáculo natural, localizado na saída da Várzea Grande. A ultrapassagem do obstáculo somente seria possível com obras de altíssimo custo, como a construção de um túnel, algo que era praticamente impossível para as condições financeiras do empreendimento naquele período. Contornar a montanha, utilizando a força da locomotiva em marcha-ré foi a saída.

As altitudes de cada estação são prova do esforço que as locomotivas precisavam despender para chegar à região. A estação Agente Hallan ficava localizada 234 metros acima do nível do mar. Já a estação Maquinista Maura ficava situada a 417 metros, a da Várzea Grande a 615 metros, a do Centro de Gramado a 827 metros e a de Canela a 830 metros.

 

“Eu cheguei de trem para morar em Gramado”

Nascido em  São Leopoldo, Anselmo Vettorazzi foi trazido a Gramado por um tio para morar com os avós. Na época, ele tinha somente um ano de idade, mas cresceu sabendo que chegou à região pela estrada de ferro. “Sempre conto que eu cheguei de trem para morar em Gramado”, afirma. A casa dos avós e dos tios ficava na localidade de Maquinista Maura, próximo à linha Carahá, onde existia uma estação ferroviária. A renda da família era fruto das vendas em um armazém que tinham em frente à estação.

Durante toda sua infância, Anselmo cresceu com a presença da estrada de ferro em frente à casa onde morava. “Me lembro muito bem de quando o trem passava. Lembro que minha mãe vinha me visitar com presentes e que ela chegava sempre junto com o trem”, conta ele, que hoje está com 67 anos. Ele também  relembra que, ainda pequeno, viajou de trem novamente para ir ao médico. “Fui uma vez à Sander quando fiquei doente e lembro até hoje de andar no trem”, relata Anselmo, que reside no bairro Várzea Grande há mais de 40 anos.

A lembrança do trem para Anselmo também está em pequenas memórias do cotidiano. “Nós costumávamos sair para visitar outras localidades, como ali na linha Moleque, e íamos caminhando pelos trilhos. Quando a gente ouvia aquele barulho do trem, saímos fora para ele passar. Era uma coisa muito normal no dia a dia”, relembra. Como era criança, os trilhos do trem eram distração para a garotada. Anselmo se lembra de algumas famílias com quem brincava no entorno da ferrovia. “Laner, Mapelli, Caberlon, Moschem, Lazaretti, Bareta, Souza e Setti eram todos nossos vizinhos. A gente usava os trilhos como brincadeira, era o que tinha”, comenta.

Mesmo sendo criança na época em que o trem passava por Gramado, Anselmo comenta que a estação era fundamental para os negócios. Na região de Maquinista Maura, residiam cerca de 13 famílias com aproximadamente 9 pessoas em cada uma delas. Logo após o trem encerrar as atividades, aquela localidade foi desaparecendo aos poucos. “Meu avô Primo Vettorazzi tinha um armazém, a Casa 34, e era um dos poucos lugares que existia para fazer compras naquela época. Ele também vendia lenha para abastecer os trens que passavam. Então, algum tempo depois de o trem parar de vir, o negócio fechou. Continuou normal por um período, mas não durou muito”, aponta.

 

Fim da linha ferroviária

O encerramento das atividades da linha ferroviária de Taquara a Canela iniciou em 1962 por determinação do Ministério da Viação e Obras Públicas. Na época, foi criado um grupo de trabalho destinado a realizar um levantamento de linhas consideradas antieconômicas em  todo o país. Logo em seguida foram passadas instruções para fechar os ramais de Pelotas a Canguçu, de Taquara a Canela, e de Ramiz Galvão a Santa Cruz.

No dia 11 de março de 1963, o tráfego da região foi suspenso. Os trabalhos de erradicação dos trilhos iniciaram em dezembro do mesmo ano e foram finalizados em  dezembro de 1965. Atualmente, a Estação do Trem da Várzea Grande e seu entorno são bens tombados pelo Patrimônio Histórico com proteção municipal da Lei 1581/98 de 29/07/1998.

 

Projeto reconstrói história do trem

Um projeto de resgate em homenagem ao centenário do trem foi iniciado no ano passado. Coordenado pelo pesquisador Wanderley Cavalcante, um levantamento percebeu a necessidade de reconstrução da memória ferroviária. Com o objetivo de deixar um legado para a atual e para as próximas gerações, surgiu a ideia de um projeto envolvendo poder público, comunidade, expedições e pesquisa. Para dar vida ao projeto, foi desenvolvido um plano de trabalho formado por três eixos: reconstrução da memória; difusão e acessibilidade didático pedagógica; e mapeamento, recuperação e valorização de sítios históricos e pontos de memória.

Na primeira fase do plano de trabalho em campo, realizada em fevereiro e no início de abril, os voluntários fizeram uma expedição de reconhecimento ao local, além da limpeza e demarcação da parte superior do rabicho, em parceria com a subprefeitura da Várzea Grande. A fase atual inclui a reconstrução do parador do rabicho, a recuperação da trilha a pé, a implantação de marcos indicativos da história ferroviária, a inclusão do rabicho nos planos de educação patrimonial, além de outras ações.

Uma das grandes ações do projeto é o evento de comemoração do centenário. A atividade inicia às 9h com um encontro no Museu do Trem, que terá atrações culturais. Em seguida, às 10h30, haverá uma caminhada a pé até o local onde ficava situado o rabicho. O evento comemorativo está programado para o dia 15 deste mês.

 

MUSEU DO TREM

O Espaço Cultural Estação Férrea Museu do Trem tem como objetivo promover, por meio de exposições permanentes e itinerantes, a reconstrução histórica do bairro Várzea Grande, representada por objetos, documentos primários e fotografias. O local existe há 100 anos e, desde 2008, foi transformada em Museu. Réplicas de locomotivas, máquina de escrever, calculadora, rádio, carteiras de identificação de ferroviários, luminárias, fóle que era utilizado para acender fogo da locomotiva e baús usados como malas fazem parte do acervo.

Conforme a supervisora do Centro Municipal de Cultura Várzea Grande, Maria Solange Muller, “o Museu tem grande importância por guardar elementos da memória ferroviária da história de Gramado. Acredito que a população está se apropriando cada vez mais desse espaço”. O Espaço Cultural Estação Férrea Museu do Trem fica localizada na avenida do trabalhador, 201, e fica aberto de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 11h30 e das 14h às 17h30.

 

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