A reportagem visitou o casal José Carlos e Janice Benetti, na Linha Chapadão, para contar a história dos produtores
Leonardo Santos
CANELA – Trabalho, formação de raízes e cultura. As famílias do interior são as responsáveis por manter metrópoles abastecidas, garantindo insumos para população urbana diariamente. Somente o colono sabe as dificuldades encontradas rotineiramente para movimentar uma engrenagem grandiosa de produção, que depende, principalmente, de situações climáticas e estruturais.
A reportagem do Jornal Integração foi até a Linha Chapadão, na propriedade de Janice Benetti de Oliveira e José Carlos Jardim de Oliveira, contar a história de como surgiu um dos primeiros aviários do município para a criação de frangos de corte. O Dia do Colono é comemorado na próxima quarta-feira (25).
Onde tudo começou
Janice é natural da localidade e desde muito nova aprendeu a lida na prática.“Minha infância foi aqui. Desde pequena eu ajudava meus pais tirando leite, ajudando na lida de campo e nas lavouras”, contou.
José Carlos, nascido em Rondônia, também foi criado no interior e admitiu que nunca se deu bem com cidades grandes, apesar de ter morado em três capitais. “Minha infância foi na roça também. A única adaptação que tive foi por conta do clima, porque eu amo isto. Voltar para o interior foi muito bom. Eu nunca gostei de grandes cidades. Eu brincava com ela que queria limpar roça, da cidade eu já estava cheio”, disse.
A canelense e o rondoniense se conheceram na cidade de Canoas, em fevereiro de 2003, onde um namoro se iniciou. O romance foi interrompido seis meses depois: a mãe de Janice, que estava muito doente, precisava de cuidados, o que fez com que a filha retornasse ao interior.
“Nos conhecemos em 2003 quando ela foi morar em Canoas. Tivemos um namoro de alguns meses, mas ela teve que retornar. Eu acabei ficando, mas vim para cá no final do ano. Ela me enganou, disse que era filha de fazendeiro”, brincou José. “Minha mãe desenvolveu um câncer e resolvi voltar. Eu podia estar em casa ajudando ela ao invés de estar lá. No final do ano o Zé veio para cá morar. Ficamos em contato por alguns meses. Ele tinha que comprar um cartão e falar pelo orelhão. Tinha que marcar horário para a gente ligar, não tinha essa tecnologia”, completou.
Dois anos depois, o namoro virou casamento e o sonho de entrar na agricultura familiar se formou. Primeiramente, o casal comercializava verduras e queijos e mantinha criação de gado, mas queria algo a mais.
“Casamos com a data marcada, mas ficamos morando com meu pai, que incentivou que mantivéssemos as vacas e vendas de produtos. Nós se virávamos. Até que resolvemos que queríamos algo diferente”, explicou Janice.
O casal chegou a recusar uma proposta para morar em Porto Alegre, mas a ideia de abandonar o lar não convenceu os dois, que queriam dar vida ao sonho. “Decidimos não ir. Conhecemos os aviários e colocamos na cabeça que era isso que queríamos. Tentamos, tentamos e tentamos. Os bancos não liberavam crédito porque ainda era um pouco desconhecido, não tinham muitos aviários por aqui”, frisou.

Por dois anos, a ideia ficou somente no papel. Até que, em 2009, a liberação ocorreu e o casal me movimentou financeiramente comercializando as vacas e os produtos para construir o pavilhão. “Vendemos tudo, mas conseguimos fazer um aviário para 13 mil frangos. Foi assim que começamos”, descreveu.
No dia 31 de dezembro de 2009 o primeiro lote foi alojado. O sonho estava realizado, mas o primeiro baque viria pouco tempo depois, em fevereiro de 2010.
“Tivemos um prejuízo muito grande porque, no segundo lote de frangos, o aviário foi inundado. Teve uma chuva muito forte e um açude acabou estourando e alagando tudo Perdemos todo aquele lote e o seguro não cobriu”, lamentaram.
Na época, a perda dos frangos resultou em um rombo de R$ 20 mil. “Nós seguimos, foi difícil e muito complicado. As dívidas foram aumentando e não conseguíamos dar a volta. Ficamos por mais dois anos assim, tivemos nossa filha e quando ela completou um ano de vida nos paramos para conversar. Decidimos que eu iria trabalhar fora e a Janice iria cuidar do aviário”, sublinhou José.
Em busca de mais renda, José foi trabalhar em outra propriedade e Janice ficou responsável por tocar o aviário. Com o passar dos meses, o negócio começou a resultar em lucros para a família, que construiu um segundo, em 2017.
“Começou a melhorar muito. O primeiro aviário deu certo, o que acabou resultando em recursos para a construção do segundo e automatização do primeiro. Foi o que fizemos e deu certo. Conseguimos investir nos equipamentos que facilitam o nosso trabalho”, contou ela.
Atualmente, a família possui dois aviários automatizados na propriedade. Há alguns anos, antes da evolução tecnológica nas estruturas, o casal trabalhava cerca de 18h a 20h por dia.
“Nos dias de frio, quando não era automatizado, tínhamos uma escala de noite. Ele ia e eu ficava dormindo. Depois ele dormia e eu trabalhava. Tínhamos esse trabalho por conta do forno, que precisava estar sempre abastecido”, salientou.
Os aviários somados recebem 51.500 pintinhos, a cada dois meses. Nas primeiras duas semanas, as aves ficam em um espaço limitado e passam por processos de alimentação, cuidado com a temperatura e movimentação. Após este período, os pratos infantis são retirados e o espaço é aumentado e o processo se repete. Ao completar os 45 dias, a granja busca os frangos e encaminha ao frigorífico.
“A criação de frango é muito compromisso. O sucesso e fracasso andam muito próximos. Mesmo na automatização temos que ter atenção”, destacou José.
Porque escolheram a Colônia?
Questionados sobre a escolha de continuar vivendo e trabalhando na colônia, Janice e José explanaram amor pelo que construíram e que fariam tudo de novo para conquistarem a vida que tanto amam.
“É um lugar onde a família começou e ainda está aqui. Eu amo isso, é a nossa vida. É difícil (o trabalho), mas acabamos acostumando com as dificuldades, que quando vão embora, sentimos falta. Podemos até reclamar, que é judiado e tudo mais. Mas parando se dá valor ao que fazemos. Além de tudo é uma questão necessária. Para termos melhores condições para a nossa filha e podermos viver de uma forma mais agradável. Valeu muito. Se tivesse que voltar e começar tudo eu faria. Brigava, chorava e chorava de novo, mas é assim. Valeu tudo que fizemos”, justificou Janice.
“O serviço quando era manual era mais sofrido, mas é uma coisa que gostamos. Amo a vida da colônia, da roça. Quando eu vim para cá tive propostas para ser professor no Marista, sou formado em filosofia, mas não aceitei porque sabia que não ia me adaptar. Aqui eu me saio muito melhor e sou mais feliz”, frisou.
Para finalizar, Janice falou da filha e comentou que uma das coisas que mais dá alegria é poder compartilhar momentos de lazer e trabalho com a pequena. “Poder criar a filha junto a função do trabalho é gratificante. É correria, mas ela estava comigo. Tenho a certeza que por isso eu gosto tanto, minha mãe era assim comigo também”, concluiu.










