Leonardo Santos
Tiago Manique
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GRAMADO – Na manhã do último domingo (22), um trágico acidente aéreo abalou a cidade. A queda de uma aeronave, pilotada pelo empresário Luís Galeazzi, causou a morte de 10 pessoas, entre elas, o próprio piloto e vários de seus familiares. O acidente ocorreu nas imediações de empresas e residências da região, deixando marcas profundas nos moradores locais. Testemunhas, moradores e empresários da região, contaram detalhes de como tudo aconteceu e onde estavam quando.

Adair Arnhold, CEO da empresa Toque e Retoque, narra momentos de pânico
Adair Arnhold, CEO da empresa Toque e Retoque, compartilhou sua experiência ao ser informado sobre o acidente. “No primeiro momento recebi o aviso que a loja havia ficado sem energia, eu estava em Tramandaí. Logo depois, meu irmão me ligou me perguntando se eu sabia da queda de uma aeronave, e ele não sabia se tinha sido na minha empresa ou na do lado, mas sabia que havia sido nas redondezas. Um pouco após, um vizinho de empresa informou para nós que era verdade o que estava acontecendo”, relatou.
A tensão era maior com o fato de que, no dia anterior, a região estava cheia de pessoas, incluindo funcionários e clientes. “Se fosse no sábado, a queda teria muita gente machucada. Aqui do lado, onde tinham pessoas sendo atendidas, mas graças a Deus isso foi no domingo, e não no sábado. Senão, teríamos muito feridos.”
Retomada das atividades e apoio da comunidade
Apesar da tragédia, Adair Arnhold se mostra determinado a reconstruir a empresa. “Já retornamos, chegamos aqui perto das 12h e vamos ficar aqui agora para concluir as reformas. Com certeza, teremos o apoio do pessoal do Legendários, amigos e colaboradores. A maior parte do gesso que caiu já foi retirada e hoje à tarde faremos a remoção do restante.”
Henrique Hermann, vizinho da pousada: “Fiz seguro da minha casa e o corretor queria incluir desastre aéreo”

Henrique Hermann, morador e vizinho da pousada onde ocorreu a tragédia, também viveu momentos de grande tensão. “A primeira ocasião que me aconteceu foi a preocupação quando recebi a notícia. Que o pessoal que me informou da tragédia estava do outro lado da rua, não tinha noção. A casa tua Henrique, está em chamas e em fumaça. E aí, a gente ficou muito preocupado, peguei uma estrada e viemos aqui.”
Quando chegou ao local, Henrique encontrou a sua casa danificada, mas graças a uma cerca viva, conseguiu evitar maiores danos. “Eu vi a casa estava intacta, com algumas janelas quebradas, telhado quebrado, porta quebrada, mas tudo assim, nada de se assustar. O que eu acho que me protegeu muito foi essa cerca viva que tem aqui, a 7, 8 metros da minha casa, e a aeronave caiu logo depois da cerca viva. As chamas e a explosão frearam o impacto na minha residência.”
Henrique também relatou um fato curioso e irônico. “Certa vez eu fui fazer o seguro da minha casa e o corretor me perguntou: ‘Henrique, tu quer fazer seguro contra vendaval, contra incêndio, tu quer fazer contra queda de aeronave?’ Eu tirei uma onda do cara, mas agora, oito metros da minha casa, aconteceu isso.”
Desolação e o impacto psicológico na comunidade
Os moradores da região, impactados pela tragédia, estão lutando para lidar com as consequências do acidente. “Vai ser um dia que ninguém vai esquecer, até aqueles que não moram aqui na região. O impacto foi muito grande, principalmente porque estávamos em um evento muito grande, que é o Natal Luz. A pousada estava lotada, a pousada ao lado também, e nossa rua não tem mais luz, não tem nada. O pessoal está desesperado”, lamentou Henrique.
Ele também mencionou o impacto financeiro que a cidade enfrenta após a tragédia. “Era um momento também de ganhar dinheiro, né? E parece que agora, depois da tragédia da enchente, que causou danos enormes para a cidade, veio essa nova tragédia. É muito triste, a repercussão é enorme, não só para a cidade, mas para o país inteiro, pela imprensa.”
Comunicação com a família durante o caos
Henrique compartilhou a difícil tarefa de comunicar a sua filha, que mora na Austrália, sobre o ocorrido. “A primeira coisa, quando nós chegamos aqui em volta do meio-dia, eu cheguei aqui, lá era meia-noite, uma hora da manhã, então ficou difícil. A primeira coisa que fiz foi um vídeo para ela, mostrando o que aconteceu e explicando para ela que nós estávamos bem. Para tranquilizá-la, para ela saber que todos estavam bem.”
Wagner Wander Pardin: “Vi uma bola de fogo na torre, não via o avião”

A Pousada dos Pássaros, localizada a poucos metros de onde ocorreu a tragédia, estava lotada. Momentos antes da queda, Wagner Wander Pardin, proprietário do estabelecimento, estava recepcionando os hóspedes no café da manhã. Ao escutar o primeiro impacto, como se fosse uma grande explosão, correu para a porta para ver o que estava acontecendo.
“Vi uma bola de fogo na torre, não via o avião, pois tinha muita cerração. Logo em seguida, veio o estrondo quando pegou no chalé da primeira pousada. Aí ele realmente caiu. Passou pela casa do seu Cláudio [vizinho que teve o andar de cima da casa atingido], e ali o avião realmente indicou direto na loja. E aí veio a explosão e o cheiro de querosene, que foi aí que nós tivemos realmente a noção de que era um avião”, contou.
Pardin conta que, com a queda, houve um estrondo muito grande. Vendo o que havia ocorrido e mesmo não tendo certeza do tamanho do perigo ao lado, pois próximo há um posto de combustível, tratou de acalmar os hóspedes.
“Foi incrível, porque como é que tira força nessa hora para falar para as pessoas que estava tudo bem, e a gente vendo ali pessoas morrendo ao lado e não tinha o que fazer. Então, minha função foi acalmá-los. Começamos a manobrar os carros para tirar, porque o cheiro de querosene e gasolina foi muito intenso, e a minha preocupação já era com o posto de combustível. Em seguida, veio a segunda explosão. Aí, realmente, tiramos todos os hóspedes, que foram para outros hotéis. Fizemos a nossa parte, que foi prestar o serviço, e começamos a socorrer os vizinhos”.
Com o trabalho rápido das forças de segurança em nível municipal, estadual e federal, a rotina da pousada espera que retorne, mas para isso precisa do retorno da energia elétrica, que foi afetada na região. “Nós temos os compromissos com os hóspedes, precisam tomar banho, tem crianças pequenas, a gente tem o protocolo que hoje [segunda-feira, dia 23] até as 13h45 estaria ligado, até agora não aconteceu”.
Gustavo Lobato: “Um policial achava que era explosão de um botijão de gás”

Os cafés da manhã na sacada de seu apartamento aos domingos nunca mais serão os mesmos para o morador da Travessa Itu, o médico Gustavo Lobato. Morador de um prédio próximo onde a aeronave teve o primeiro impacto, ele foi um dos primeiros a chegar no local do acidente. Ele conta que estava tomando café da manhã com a família e, ao escutar o estrondo, observou que o prédio todo tremeu.
“Ouvimos um barulho, desconhecia esse som, cheguei a assustar porque estremeceu o apartamento, uma vibração muito grande. Cheguei a falar com a minha esposa: ‘acho que caiu um meteoro’, pelo tamanho do estrondo que fez, e a visibilidade era muito pequena, porque eu não conseguia abrir a janela e a gente não conseguia quase olhar e ver quem estava na rua, então não dava para ver de fato o que estava acontecendo. Mas a gente abriu a janela da sacada, viu que tinha uma movimentação na rua e alguns hóspedes da pousada, que tem logo ao lado do meu prédio, avisando para chamar a polícia, bombeiro, SAMU, porque caiu um avião, e aí nesse momento foi extremamente chocante, impactante”, contou.
O médico menciona que foi para a rua e já visualizou um tumulto no trânsito e muita fumaça. Ao chegar próximo do local, observou a aeronave em chamas.
“Não quis arriscar, obviamente, de me aproximar, mas estava totalmente amassada, compactada e já em chamas. E, nessa hora, eu já saí de perto, porque poderia acontecer outra explosão, e tinha alguns populares ali perto, algumas pessoas realmente ainda sem entender. Me parece que duas pessoas já tinham saído da pousada e ido em direção ao posto de gasolina, porque tinham duas vítimas de queimaduras esperando a chegada da ambulância do SAMU, que logo os atendeu”, disse.
Um fato curioso foi relatado por Gustavo. Quando chegaram os primeiros policiais para o controle do trânsito, um deles o perguntou se teria sido um gás que havia explodido na pousada.
“Um policial chegou, começou a organizar o trânsito, e na hora que eu estava passando, perguntou se nós tínhamos visto a hora que explodiu o botijão de gás. Aí falei: ‘Como assim, meu amigo? Não foi botijão de gás, caiu um avião aqui’, e ele ficou meio extasiado. Aí repeti: ‘Caiu um avião, o que está pegando fogo ali é a aeronave que explodiu’”, finalizou.











