A cólica renal é considerada uma das piores dores que o ser humano pode sentir. Muitas vezes, essa dor é desencadeada por um cálculo, conhecido popularmente como pedra nos rins. Dados da Sociedade Brasileira de Urologia apontam que os cálculos renais são altamente prevalentes em todo o mundo e estão aumentando nos últimos anos, inclusive devido às mudanças de hábitos. Ingerir pouco líquido e não possuir uma dieta equilibrada são alguns deles. Estima-se que até 13% da população mundial possui cálculos renais e, no Brasil, esse índice é na ordem de 5%. Os cálculos urinários são mais frequentes em homens, com pico de incidência entre 20 e 40 anos.
Alguns sintomas específicos, como dor aguda, náuseas, vômitos e sangue na urina são características dos cálculos renais. Com relação à dor, trata-se de uma dor lombar alta, unilateral, visto que raramente se manifesta nos dois lados das costas. Diferente de uma dor crônica, aquela que se instala por dias ou semanas, essa irradia-se pelo flanco (região lateral do abdômen), pela pelve e alcança os genitais tanto do homem quanto da mulher, à medida que o cálculo progride pelas vias urinárias. É importante ressaltar que a posição ou o movimento realizado pelo corpo não influenciam no aparecimento nem na intensidade dessa dor.
A formação do cálculo está associada a alguns fatores de risco, como baixo consumo de água, alto consumo de sal, gota, obesidade, diabetes, infecção urinária crônica, história familiar positiva e algumas doenças genéticas. Além disso, situações específicas também podem contribuir: nas mulheres, a gravidez causa importantes alterações fisiológicas, o que pode levar também à ocorrência de cálculos. Nos homens, a hiperplasia prostática benigna, condição muito prevalente, dificulta o esvaziamento da urina e também leva à formação de cálculos. Apesar de ser chamada de cálculo renal, pode surgir em qualquer ponto do aparelho urinário, que é constituído pelos rins, ureteres, bexiga urinária e uretra.
O risco de aparecimento de um cálculo multiplica-se quando se soma a doenças como diabetes, hipertensão, obesidade, infecções urinárias, distúrbios endocrinológicos e alteração anatômica das vias urinárias. Os cálculos podem ter em sua composição oxalato de cálcio, hidroxiapatita, ácido úrico, estruvita, cistina, entre outros componentes. “Eles são formados pelo desequilíbrio entre substâncias que favorecem e as substâncias que inibem a agregação de minerais no nosso organismo. Um ponto importante de salientar e um dos mais simples de corrigir é a baixa ingestão de líquidos. O baixo volume de urina é o papel preponderante para aumentar a concentração dos minerais na urina e levar à formação de cálculos”, explica a urologista Catiucia Hommerding.
Casos complicados ou nos quais o diagnóstico é feito de forma tardia podem levar à perda da função renal e infecção generalizada. O diagnóstico costuma ser realizado por exames de imagem, sendo a Tomografia Computadorizada de Abdome o procedimento padrão. Ela pode definir a localização (rim, ureter ou bexiga) e o tamanho dos cálculos, além de informar dados sobre potenciais complicações.
Catiucia explica que os cálculos renais são doenças de fácil diagnóstico e prevenção, mas algumas intercorrências podem dificultar o diagnóstico. “Devido a inúmeros fatores, tais como dificuldade de acesso a profissional e exames diagnósticos complementares adequados, acabamos evidenciando casos nos quais nos deparamos com complicações graves, como perda, transitória ou definitiva, do rim acometido pelo cálculo”, destaca.
A urologista também comenta que o aumento na prevalência de cálculos renais é um fenômeno global. Um dos motivos é a utilização de exames de imagem para prevenção de outras doenças, que acabam detectando um cálculo renal assintomático. “Este é um fato benéfico, tendo em vista que poderemos avaliar a doença de forma eletiva. Outro motivo é que alguns dos principais fatores de risco, tais como a obesidade e erros dietéticos, também vem contribuindo para o aumento da taxa de cálculos urinários na população”, salienta.
Cálculos podem ser eliminados espontaneamente conforme o tamanho
O tratamento para o cálculo renal depende da localização, tamanho e tempo de doença. Existem duas situações diferentes que determinam a forma como o paciente será tratado:
Urolitíase: quando o cálculo se encontra dentro do rim. Neste caso o tratamento é, na maioria das vezes, eletivo. Atualmente é feito de forma conservadora, apenas com medicações de Terapia Médica Expulsiva, ou de forma minimamente invasiva. Na urolitíase, quando o cálculo é sintomático (na maioria das vezes quando ultrapassa 1 cm de diâmetro), acaba sendo indicado tratamento cirúrgico.
Ureterolitíase: considerada uma emergência médica, que acontece quando o cálculo que estava dentro do rim migra para o ureter (o canal que liga o rim à bexiga). É neste momento que o paciente sente a dor aguda. O tratamento na grande maioria das vezes é conservador. A taxa de eliminação espontânea é de 60% para um cálculo de 5 a 7 mm. Caso o paciente não elimine o cálculo entre 15 e 30 dias ou apresente quaisquer sinais de gravidade, será indicado tratamento cirúrgico.
Na ureterolitíase, existem três situações específicas que indicam cirurgia de urgência: dor intratável, perda de função renal e infecção associada. “A cirurgia indicada nestes casos é a ureterorrenolitotripsia semirrígida laser, na qual fragmentamos o cálculo com o Holmium Laser. Em casos nos quais o diagnóstico é tardio, há necessidade de drenar a infecção com um cateter chamado duplo J e, em um segundo tempo cirúrgico, realizar o tratamento definitivo a laser”, relata a urologista Catiucia.
Hábitos saudáveis são aliados na prevenção
Algumas mudanças nos hábitos do cotidiano podem diminuir o risco de formação de um cálculo urinário e suas consequências, incluindo a ingestão de líquidos necessários, a redução no consumo de sódio e a tentativa de manter um peso ideal (já que a obesidade pode aumentar excreção de vários minerais na urina).
Para quem já teve um episódio de dor por cálculo renal, o correto é sempre procurar um especialista para avaliação metabólica específica para prevenção de novos casos, visto que a chance de recorrência é de 40% durante os próximos cinco anos. Ainda, pessoas que já tiveram a doença também devem ficar atentas aos métodos de prevenção para que o risco seja controlado.
Confira algumas dicas de prevenção:
– Pratique atividades físicas;
– Beba muito líquido, especialmente água. O suficiente para uma urina amarela clara. Esta é a atitude mais importante para diminuir o risco de formar pedras nos rins. Bebidas açucaradas (refrigerantes, sucos industrializados, cafés especiais, chás e bebidas alcoólicas) não são boas opções e podem aumentar o risco de pedras nos rins;
– Moderar a ingestão de proteína animal, incluindo carne, peixe, frutos do mar, aves e ovos. O ideal é associar com maior frequência fontes de proteína baseadas em plantas, como lentilhas, ervilhas, feijões, soja e nozes;
– Limite a quantidade de sódio que você ingere (alimentos industrializados e o sal branco). Substitua o sal por ervas, especiarias, temperos, limão, alho, gengibre e pimenta;
– Coma mais frutas cítricas, legumes frescos, grãos integrais, leite e iogurte.