O depoimento da estudante Vitória Rochembach, apresentado em audiência pública, na noite de quarta-feira (6), na Câmara de Canela onde tratou sobre as condições do transporte universitário, escancara uma realidade que muitas vezes permanece invisível Por trás de cada aluno que consegue chegar à universidade, existe uma batalha silenciosa contra o relógio, o cansaço, a burocracia e, muitas vezes, a falta de compreensão do próprio sistema.
Além do transporte
Vitória não falou apenas sobre transporte. Ela falou sobre sobrevivência. Sobre acordar cedo, trabalhar o dia inteiro, sair antes do expediente para não perder o ônibus, ter descontos no salário, chegar atrasada na aula, sair antes do término e acumular faltas que podem comprometer um semestre inteiro. Falou sobre caminhar sozinha à noite por ruas perigosas, sobre medo, insegurança e exaustão. Falou, principalmente, sobre a sensação de que estudar parece ser uma prova de resistência.
Existem outras “Vitórias”
O relato dela representa centenas de estudantes que tentam mudar de vida através da educação, mas encontram obstáculos em praticamente todas as etapas. Há um discurso muito forte de valorização do estudo, mas, na prática, o sistema muitas vezes parece desenhado para dificultar o acesso e a permanência de quem mais precisa.
Rotina excessiva
A juventude trabalhadora vive uma rotina brutal. Muitos estudantes trabalham de segunda a segunda-feira, dobram turnos para pagar mensalidades e enfrentam jornadas que ultrapassam facilmente 14 ou 15 horas entre trabalho, deslocamento e estudo. O resultado disso é o desgaste físico, emocional e psicológico. Não sobra tempo para descanso, convivência familiar ou organização da própria vida.
Aí que entra o 5X2
É justamente neste cenário que cresce a discussão sobre modelos de trabalho mais humanos, como a escala 5×2. O debate não deve se limitar apenas aos pais e mães de família, embora essa pauta também seja urgente. A necessidade de tempo é de toda uma geração que tenta conciliar trabalho, estudo e futuro. O estudante trabalhador também precisa viver. Precisa estudar com dignidade. Precisa conseguir chegar em casa sem medo e sem carregar a sensação permanente de fracasso.
Romantizar o excesso
Existe uma romantização perigosa do esforço extremo. Como se vencer na vida dependesse apenas de “querer muito”. Mas não basta vontade quando faltam condições mínimas. Nenhum aluno deveria precisar escolher entre assistir a aula até o final ou conseguir voltar para casa. que os horários simplesmente não conversam entre si. O depoimento de Vitória também levanta outra reflexão importante: a burocracia desumana. Em muitos setores, parece que as regras existem para complicar ainda mais a vida das pessoas, seja em qualquer esfera seja municipal, estadual e federal. Vitória não pediu privilégio, mas condições.









