Uma declaração de Luiza Trajano, esta semana, uma das maiores empresárias do varejo brasileiro, merece ser levada a sério. Ao comentar o cenário econômico, ela afirmou que “o juro alto tem acabado muito com as empresas brasileiras” e defendeu que seja dado ao mercado, pelo menos, um sinal de que haverá algum respiro. Também lembrou que, durante a pandemia, iniciada em 2020, em que pese um momento excepcional gravíssimo, foram tomadas medidas rápidas para proteger empresas e a economia.
A fala ganha ainda mais força justamente agora, quando o Grupo Casas Bahia, um dos maiores nomes do varejo nacional, acaba de pedir recuperação judicial para renegociar R$ 17,3 bilhões em dívidas. A empresa atribui parte importante de suas dificuldades à combinação de juros elevados, restrição de crédito, aumento dos custos financeiros e inadimplência. O plano prevê fechamento de cerca de 300 lojas e redução de aproximadamente 3 mil postos de trabalho.
Mas Casas Bahia não é um caso isolado.
Nos últimos anos, grandes empresas brasileiras tiveram de recorrer à recuperação judicial ou a mecanismos de reestruturação para continuar funcionando. Gol, Bombril e AgroGalaxy estão entre os exemplos recentes. E há dois casos que não podem ser esquecidos.
A Americanas entrou em recuperação judicial em janeiro de 2023, depois da descoberta de um dos maiores escândalos contábeis da história empresarial brasileira, com uma dívida na casa dos R$ 43 bilhões. Três anos depois, a empresa pediu à Justiça o encerramento da recuperação, mas credores ainda contestam a medida. E a Braskem, gigante petroquímica, também enfrenta uma situação financeira delicada. Em 2026, buscou proteção judicial contra credores enquanto negocia uma possível recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida superior a US$ 10 bilhões.
São histórias diferentes. A Americanas, por exemplo, carrega um componente gravíssimo de inconsistências contábeis que não pode ser confundido com a crise de outras empresas. Mas há um ponto comum que merece atenção: o dinheiro ficou caro demais e o crédito ficou mais difícil.
E não estamos falando apenas de grandes corporações. O número de recuperações judiciais no Brasil disparou, com alta de 65,8% em levantamento recente, e comércio, transporte e agronegócio aparecem entre os setores mais atingidos. Juros elevados e crédito restrito são apontados entre os fatores que pressionam as empresas.
É preciso fazer uma ressalva: não é correto atribuir toda recuperação judicial aos juros. Há má gestão, decisões equivocadas, mudanças de mercado, concorrência, fraudes e muitos outros fatores. Cada caso precisa ser analisado individualmente.
Mas também seria um erro ignorar o ambiente econômico.
Uma empresa pode estar vendendo, empregando, pagando impostos e tendo clientes e, ainda assim, não conseguir sobreviver se o custo do dinheiro consumir sua margem e impedir a rolagem das dívidas.
No varejo, isso é ainda mais evidente. A empresa precisa financiar estoque, oferecer crédito, manter lojas, pagar fornecedores, funcionários e aluguel. Quando o dinheiro custa caro, a conta chega para todos.
E quando uma gigante fecha centenas de lojas, o problema não fica restrito aos seus acionistas. Afeta trabalhadores, fornecedores, transportadores, prestadores de serviços, shopping centers e os pequenos negócios que vivem ao redor dessas grandes empresas.
Por isso a fala de Luiza Trajano é importante. Não porque ela tenha necessariamente a resposta para todos os problemas da economia brasileira, mas porque vem de quem está dentro do negócio, emprega milhares de pessoas e sente diretamente o custo do dinheiro.
Talvez seja hora de discutir juros sem torcida política.
Porque uma coisa é certa: quando até os gigantes começam a pedir socorro, não estamos diante de um problema pequeno.
E, se a economia precisa de empresas fortes para gerar empregos, impostos e renda, talvez seja necessário perguntar se o Brasil está criando condições para que elas cresçam ou apenas criando mecanismos para tentar salvá-las depois que já estão sufocadas.










