REGIÃO – Após 15 anos dedicados à formação de atletas e cidadãos, Leonardo Frazão anunciou a paralisação das atividades da Associação Toque de Letra de Futsal (ATLF). A decisão, comunicada no início deste ano, foi motivada por questões de saúde que exigem um período prolongado de recuperação.
Em entrevista ao Jornal Integração, Léo como é carinhosamente conhecido, abriu as portas de casa, onde mantém uma verdadeira galeria de troféus, e falou sobre o momento delicado. No ano passado, ele passou por um transplante de córnea e, apesar da cirurgia ter sido bem-sucedida, a recuperação está sendo mais lenta do que o previsto. Além disso, uma nova intervenção cirúrgica está prevista para os próximos meses, o que o obrigará a permanecer afastado das quadras ao longo de 2026.
“Eu não vou ter condição de dar a atenção que os meus atletas merecem. Para mim, isso é fundamental”, afirmou. Segundo ele, a decisão foi amadurecida junto à família e tomada com responsabilidade, priorizando a saúde.
Repercussão e gratidão
O anúncio gerou forte repercussão entre pais, alunos e ex-atletas. De acordo com Léo, a reação foi marcada por compreensão e apoio. “Recebi muitas mensagens de força e agradecimento. Trabalhamos com muitas gerações. Hoje, alguns que treinaram comigo já são pais”, destacou.
Ele aproveitou para agradecer a todas as famílias que confiaram seus filhos ao projeto ao longo dos anos. “O mais importante sempre foi passar valores, ensinar resiliência e mostrar que as dificuldades fazem parte da vida”, descreveu.
Legado além das taças
Com quase 200 troféus conquistados em competições regionais e estaduais, a Toque de Letra construiu uma trajetória vitoriosa dentro das quadras. Mas, para o treinador, o principal legado não está apenas nos títulos.
“Eu acredito que deixei a resiliência. Ensinei que vão perder, vão errar, mas precisam levantar a cabeça e seguir trabalhando”, ressaltou.
Léo também destacou o orgulho de ter rompido barreiras. Deficiente visual, enfrentou preconceitos no início da carreira. “Ouvi que iam jogar contra o ‘time do ceguinho’. Mas o que importa é o trabalho. A comunidade abriu a mente e aceitou um deficiente no esporte”, disse. Outro marco foi a inclusão de meninas no futsal, quebrando paradigmas e ampliando oportunidades.
Conquistas históricas
Entre os momentos mais marcantes está o título estadual da categoria Sub-15, em 2019, considerado um divisor de águas para o projeto. Naquele ano, o treinador conseguiu intensificar a rotina de treinos, o que refletiu diretamente no desempenho da equipe.
Também ganhou destaque a parceria com a equipe feminina Dona Futsal, que resultou na conquista do título estadual da Série Bronze, feito inédito para a região. A campanha teve jogos disputados no Perinão e decisão realizada no Grêmio Náutico Gaúcho, em Porto Alegre. “Poucos falam, mas temos campeãs estaduais aqui. Fomos pioneiros”, lembrou com orgulho.
Formação para a vida
Embora alguns atletas tenham seguido carreira profissional, como casos de jogadores que hoje atuam fora do país, Léo sempre fez questão de reforçar que o objetivo principal era formar cidadãos.
“Se não for jogador, vai ser um homem de bem, trabalhador. A vida é cheia de ‘nãos’, e a gente precisa aprender com eles”, ensinava aos alunos.
Sobre a cultura de premiar todos os participantes em competições, ele foi sincero: como gestor, adotava a prática para valorizar o esforço coletivo, mas, como educador, acredita na importância do mérito e da conquista como parte do aprendizado.
Uma pausa, não um adeus
Apesar da paralisação das atividades da escolinha, Léo não descarta um retorno futuro, seja à frente de um projeto de base ou em convite para treinar alguma equipe. “Hoje eu parei, mas nada impede que mais para frente eu volte”, afirmou. Enquanto isso, fica o legado de uma trajetória construída com dedicação, disciplina e paixão pelo futsal e, principalmente, pela formação humana de centenas de jovens da região.
CONFIRA ABAIXO A ENTREVISTA COMPLETA











