InícioEsportesGramado e CanelaVÍDEO e FOTOS: De Canela ao topo da Malásia

VÍDEO e FOTOS: De Canela ao topo da Malásia

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Leonardo Santos

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CANELA – Na simplicidade de um ginásio comunitário no Centro Social Padre Franco, em Canela, Paulo Josué — ou simplesmente Paulinho, como ainda o chamam os amigos de infância — se sentou diante de dezenas de jovens alunos para contar uma história que soa inacreditável até para ele mesmo. Um garoto de bairro, de escola pública, que saiu dos campos amadores da Serra Gaúcha para se tornar capitão, artilheiro e símbolo de um clube asiático e, mais que isso, jogador de uma seleção nacional. Aos 36 anos, ele veste a camisa da seleção da Malásia e é ídolo absoluto do Kuala Lumpur City, onde atua há oito anos.

Durante a conversa com os estudantes, Paulo não economizou sinceridade nem humildade. “Todo mundo vê hoje eu jogando na seleção, com a faixa de capitão no braço, estádio lotado, Copa da Ásia, eliminatórias… Mas parece que caiu do céu. E nunca é assim”, resumiu. “É muita dedicação, disciplina, resiliência. Esse é o caminho. Não existe atalho.”

Natural de Canela, Paulo construiu a carreira longe dos holofotes. Começou em times locais e amadores, como o Serrano, onde foi observado por olheiros do Juventude num amistoso — “dali tudo começou”, recorda. Profissionalizou-se tardiamente, o que, no mundo do futebol, onde os talentos são capturados cada vez mais cedo, já seria uma desvantagem. Mas foi só o começo de uma série de conquistas improváveis.

Disciplina como método, sonho como combustível

Aos alunos presentes na palestra, Paulo reforçou o que considera o maior segredo de sua trajetória: a consistência. “É preciso estar pronto. Oportunidade aparece, mas não avisa quando vem. Se tu não tiver preparado, ela passa.”

Ele falou com carinho sobre o ambiente escolar, lembrando que estudou em instituições públicas de Canela e que nem sempre o futebol parecia um caminho concreto. “Nunca tive muita estrutura, mas tive apoio. E sempre levei tudo com seriedade. Não adianta sonhar e não fazer por onde.”

Mesmo os momentos mais marcantes de sua carreira foram construídos com paciência. Um deles foi a naturalização como cidadão da Malásia. Aos 33 anos, idade em que muitos jogadores já planejam encerrar a carreira, Paulo foi convocado pela primeira vez para vestir a camisa da seleção malaia.

“Quando vi meu nome na lista, deu um arrepio do dedão do pé até a orelha. Era o reconhecimento de tudo que eu vivi. São centenas de jogadores profissionais no país, e eu estava entre os 25 chamados”, descreveu. “A FIFA é muito rigorosa. Tudo ali é oficial, é sério. E eu tive a chance de disputar qualificatórias para Copa do Mundo, Copa da Ásia… É uma experiência indescritível.”

Foto: Tiago Manique/JIH – Paulo Josué se profissionalizou aos 21 anos e conseguir êxito na carreira

Ídolo improvável, referência definitiva

A identificação de Paulo com o futebol malaio é tamanha que ele se tornou, segundo dados do próprio clube, o maior artilheiro da história do Kuala Lumpur City. “Nunca imaginei isso. Eu só queria jogar bola e dar uma vida melhor pra minha família. Hoje sou ídolo num país do outro lado do mundo. As pessoas me reconhecem na rua, querem fotos, me chamam pelo nome. Isso não tem preço.”

Com oito temporadas no futebol asiático, Paulo hoje é também uma figura política dentro do clube. É ouvido nas decisões, participa de discussões sobre elenco e futuro da instituição e já vislumbra a transição para fora dos gramados. “A gente sabe que a hora chega. E no meu caso, está chegando”, diz.

“Já tenho conversas com a direção do Kuala Lumpur para seguir no clube de alguma forma. Talvez na comissão técnica, talvez em funções administrativas. Ainda estamos definindo. Mas o futebol é minha área, minha paixão. Quero seguir contribuindo com ele.”

Apesar de admitir que a aposentadoria se aproxima, Paulo mantém um otimismo cauteloso. “Meu joelho já dói, claro. Mas quero jogar mais um ou dois anos. E depois, aí sim, pensar nesse novo ciclo. Talvez não seja no Brasil, talvez continue lá. A Malásia me abraçou. E eu abracei eles de volta.”

Foto: Tiago Manique/JIH – Crianças ouviram atentamente as palavras do ídolo canelense

Futebol sem fronteiras: Malásia x Brasil

Durante o encontro com os alunos, Paulo também foi questionado sobre as diferenças entre o futebol praticado no Brasil e na Ásia. “Está muito globalizado, mas ainda há distância técnica. O futebol sul-americano e europeu está muito acima. Mas eles estão aprendendo, copiando, estudando.”

Para ele, o futebol asiático tem espaço para crescer — e a paixão da torcida é um combustível potente. “Jogamos uma classificatória da Copa da Ásia na Arábia Saudita com 70 mil pessoas no estádio. O pessoal lá ama futebol. Quando a seleção vai bem, o país inteiro vibra. E isso ajuda a desenvolver o esporte.”

Ainda assim, Paulo reconhece que a evolução técnica ainda levará tempo. “A Malásia nunca participou de uma Copa do Mundo, mas eu acredito que nas próximas edições, com esse novo ciclo de jogadores naturalizados, eles vão brigar por uma vaga. E eu vou ter orgulho de dizer que fiz parte disso.”

A virada do Gramadense e o futuro da região

Um dos momentos mais emocionantes da conversa foi quando o jogador comentou sobre o crescimento do Gramadense, tradicional clube de Gramado, que se profissionalizou recentemente, venceu a Terceirona Gaúcha e hoje disputa com destaque a Divisão de Acesso.

“É sensacional. Eu joguei contra o Gramadense no amador, e hoje ver o clube profissionalizado, estruturado, com estabilidade financeira, é algo incrível. Tem muito time no interior que não consegue manter dois anos seguidos. O Gramadense está diferente.”

Paulo acredita que o clube pode ser uma porta de entrada para jogadores da Serra. “Eles já abriram núcleos em bairros, fazem peneiras. Isso é muito importante. É uma oportunidade para o menino de Canela ou Gramado não precisar sair de casa, não passar por tudo que a gente passou com saudade, dificuldade.”

E deixou no ar uma possibilidade: “Quem sabe antes de encerrar minha carreira eu ainda não visto a camisa do Gramadense? Seria simbólico demais.”

Um recado para quem sonha alto

Antes de encerrar o bate-papo, Paulo deixou um último recado, não apenas para as crianças, mas também para os adultos que ainda mantêm algum sonho guardado. “A vida não tem prazo de validade. A chance vem, às vezes tarde, mas vem. Eu sou a prova. Comecei tarde, me profissionalizei tarde, fui convocado para a seleção com 33 anos. E hoje sou artilheiro, capitão, reconhecido. Tudo depois dos 30.”

Ele também falou da importância de sair da “bolha” da zona de conforto. “Quando a gente sai do Brasil, vê o mundo. Vê oportunidade. E muita coisa boa acontece. Eu adoro morar na Malásia, adoro o povo, adoro meu trabalho. Nunca imaginei isso. Mas agarrei com unhas e dentes. E funcionou.”

A história de Paulo Josué não é só sobre futebol. É sobre não desistir. Sobre entender que a jornada importa tanto quanto a linha de chegada. E que, com disciplina, foco e paciência, até um guri do fundo do campo — como ele se define — pode virar manchete do outro lado do planeta.

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