Início Saúde Gramado e Canela Um ano após perder o filho, família conta porquê doou os órgãos

Um ano após perder o filho, família conta porquê doou os órgãos

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CANELA – O jovem Vinicius Baumarth estava prestes a celebrar seus 22 anos de vida quando sentiu fortes dores na cabeça, foi levado para o hospital e não resistiu às complicações de um tumor cerebral. Sexta-feira, 18 de dezembro, fez um ano de sua morte. Um ano de lembranças e de muita saudade para familiares e amigos, mas também um ano de alegrias e esperanças renovadas para outras seis famílias que tiveram entes que receberam os órgãos do Vini.

Doar órgãos é um ato de amor ao próximo imensurável. Ainda dentro do hospital, quando tentavam entender a morte prematura do filho, os pais Paulo Baumarth e Silvia Rosane dos Santos Reis foram questionados se haveria interesse em doar os órgãos e juntos decidiram pela doação. “Nós nunca falamos com ele sobre isso, mas temos certeza que ele aceitaria”, comentou Silvia. “Não foi fácil decidir ali na hora, mas pensamos que aquilo ajudaria outras famílias, então permitimos a doação”, acrescentou Paulo.

A família não quis detalhes da doação, soube apenas que seis pessoas de uma fila de espera foram contempladas e recordam que alguns dos órgãos transplantados foram o coração, as córneas, rins e fígado. “Ele não está mais aqui com a gente, mas o coração dele está por aí, batendo, fazendo alguém sorrir”, conforta o pai.

Vini era apaixonado por jogos, seu sonho era se profissionalizar como um gamer (jogador de videogame). Entrar madrugadas adentro disputando contra outros jogadores era costumeiro e isso lhe rendeu muitos amigos em diversas outras cidades.

O drama da família começou no dia 16 de dezembro, quando Vini sentiu dores fortes na cabeça e precisou ser levado às pressas para o hospital. A primeira tentativa foi o HCC, depois de um pouco de espera resolveram ir direto para o São Miguel em Gramado. O caso era grave e o jovem foi internado na UTI. Uma tomografia mostrou que havia um coágulo na região da nuca, que comprometeu o fluxo sanguíneo da cabeça. Neste mesmo local, Vini já havia enfrentado uma cirurgia em agosto de 2017, também para a retirada de um coágulo. E era necessária uma nova intervenção cirúrgica, mas não deu tempo, a região estava inchada demais e Vini foi vencido pelo tumor às 16h do dia 18.

Doação dos órgãos exigiu logística ágil para o transporte

A captação dos órgãos ocorreu ainda em Gramado e envolveu equipes médicas de quatro hospitais, o São Miguel (Gramado), o Pompéia (Caxias do Sul), o Clínicas (Porto Alegre) e a Santa Casa (Porto Alegre). O coração foi o órgão que obrigou maior aparato para locomoção, uma equipe de Porto Alegre veio até Gramado de helicóptero para fazer o translado até a capital. Do aeroporto Salgado Filho até o Hospital de Clínicas, a equipe precisou de escolta da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) e em 12 minutos o órgão chegou na Casa de Saúde.

No dia 19 de dezembro de 2019, EPTC postou em suas redes sociais a chegada ao Hospital Clínicas

O uso de batedores e escolta para transporte de órgãos não é raro, embora devesse ocorrer com mais frequência. De acordo com a EPTC, em 2019 foram realizadas 19 escoltas para deslocamento de órgãos para transplantes.

Para Gramado e o Hospital Arcanjo São Miguel, aquela foi a primeira captação de um coração para doação. As equipes médica e interventora do hospital celebraram o êxito na ação e expuseram o feito nas redes sociais. “Na data de 19 de dezembro de 2019, foi realizada a captação de órgãos de um paciente da UTI. Quando foi confirmada a morte encefálica abriu-se um protocolo de possível doação e iniciada uma conversa com a família do paciente. Houve a concordância para a doação. Pela primeira vez foi realizada uma captação de um coração no São Miguel e envolveu uma grande logística para o transporte do mesmo. Seis pessoas foram beneficiadas com a doação”, postaram.

“Parabéns à família e ao Vini pelo gesto de amor ao próximo. Mesmo com toda a dor, tiveram uma atitude linda onde puderam salvar outras vidas. Que Deus conforte cada dia o coração de vocês”, comentou um internauta.

“Buscamos lembrar das coisas boas”

Para Silvia, Paulo e a irmã Maria Luiza (foto), essa frase é muito representativa. Para a mãe, perder o filho demandou um esforço a mais, ela decidiu pedir demissão da loja onde trabalhava, pois era o Vini quem a buscava todos os dias no final do expediente. “Eu tentei, mas todos os dias esperava por ele, então decidi mudar”, explicou. Agora Silvia se dedica a um brechó em casa, no bairro Vila do Cedro, e já enfatiza a fidelidade de muitos clientes.

“Ele está fazendo muita falta, mas sabemos que ele está muito bem agora, ele foi uma pessoa boa, ele está bem. Era muito querido pelos colegas e amigos e deixou muitas lembranças boas. Ele queria ser famoso e ficou famoso doando os órgãos, fazendo algo bom, demonstrando amor ao próximo”, descreveu Paulo.

O Vini brincalhão e divertido está na lembrança de quem o conheceu. “Para enfrentar a saudade, a gente busca lembras das coisas boas, que foram muitas”, finalizou Paulo. As roupas do Vini foram todas doadas e os jogos ficaram com os amigos do videogame.

Leandro Eibel era o melhor amigo e ficou com o computador do Vini. “Eu decidi ficar com o computador porque era o que ele mais gostava na vida (jogos), então hoje nada dele foi deixado para trás, eu jogo nas contas dele, uso o discord dele. Tudo isso para mim ter um conforto que ele ainda está presente entre nós, me sinto bem vendo a foto dele nos jogos e mostrando que está online”, descreveu Leandro.

“O Vini era aquela pessoa que todos amavam, não tinha como não rir das brincadeiras que ele fazia. Nós nos criamos em três amigos literalmente grudados. Temos um clã de jogos, mais ou menos umas 15 pessoas de diferentes lugares, nos conhecemos como irmãos, todos os dias jogamos juntos e depois que o Vini partiu, nada mais é como antes, tudo perdeu a graça”, opinou.

“A doação dos órgãos foi a melhor atitude possível naquele momento e tenho certeza que ele ficou muito feliz por isso, porque o que ele mais gostava era de ajudar o próximo, fazer o bem, e com isso salvou outras vidas”, finalizou.

Texto: Fernando Gusen | [email protected]

1 COMENTÁRIO

  1. O coração dói ao lembrar desses momentos, mas , ao mesmo tempo, acende-se a luz do amor, da solidariedade que o Vini semeou na sua breve estada por aqui. Fui sua professora e a lembrança dele me faz refletir sobre o quanto a vida é breve e precisamos viver sempre como se fosse o último dia. A grandeza da sua família é algo que levarei para a vida , talvez, como o maior aprendizado de amor ao próximo. Descanse em paz e vele por nós.

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