InícioGeralGramado e CanelaRecorde nas urnas, minoria no poder

Recorde nas urnas, minoria no poder

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O primeiro turno das eleições de 4 de outubro produziu o Parlamento mais feminino da história do país. Foram eleitas 109 deputadas federais, contra 91 em 2022, o que eleva a participação das mulheres na Câmara dos Deputados de 17,7% para 21,2% das cadeiras. No Senado, 12 das 54 vagas em disputa foram conquistadas por mulheres, superando o recorde anterior, de oito eleitas, registrado em 2002. Nas Assembleias Legislativas e na Câmara Legislativa do Distrito Federal, 218 mulheres ocuparão parte das 1.059 cadeiras, 27 a mais do que há quatro anos.

O avanço tem rosto e endereço. Mato Grosso do Sul terá metade de sua bancada federal composta por mulheres. O Distrito Federal elegeu duas senadoras de uma só vez, fato inédito, e passará a ter suas três cadeiras no Senado ocupadas por mulheres. O Ceará terá a Assembleia mais feminina do país, com 14 deputadas entre 46 parlamentares. No Rio Grande do Sul, 16 das 55 cadeiras da Assembleia Legislativa caberão a deputadas, cerca de 29% da Casa. O Estado terá, ainda, a sua primeira vice-governadora. Silvana Covatti, que em 2016 já havia sido a primeira mulher a presidir a Assembleia Legislativa gaúcha, foi eleita em primeiro turno e repete, agora no Executivo, o pioneirismo que marcou sua passagem pelo Parlamento.

Há, nesse resultado, um dado curioso. O número de candidatas a deputada federal caiu de 3.317, em 2022, para 2.820 neste ano. Ainda assim, o número de eleitas cresceu. Menos mulheres disputaram, mais mulheres venceram. A aparente contradição ensina algo importante. A reserva mínima de 30% das candidaturas para cada gênero, prevista no art. 10, § 3º, da Lei nº 9.504/1997, garante presença na lista, mas não garante voto. O que elege é candidatura viável, com recursos, estrutura, tempo de propaganda e apoio partidário efetivo. Quando os partidos investem em candidatas competitivas, em lugar de nomes lançados apenas para cumprir a lei, o resultado aparece nas urnas.

O recorte racial merece atenção própria. Levantamento da organização Mulheres Negras Decidem identificou ao menos 15 deputadas federais negras eleitas, contra nove em 2022. É um crescimento expressivo, embora parta de um patamar muito baixo. No Senado, o quadro é o oposto: nenhuma das 12 eleitas é negra. Em um país de maioria negra, a ausência é eloquente e revela que o avanço das mulheres na política não tem alcançado todas elas na mesma medida.

Esse crescimento, convém registrar, ocorreu em ambiente hostil. O Tribunal Superior Eleitoral contabilizou 177 casos de violência política de gênero em 2026. No Rio Grande do Norte, ao menos três candidatas receberam ameaças de morte e de violência sexual durante a campanha, o que levou o Ministério Público Eleitoral a expedir recomendação a partidos e candidatos. A conduta é crime previsto na Lei nº 14.192/2021, que incluiu o art. 326-B no Código Eleitoral. A tipificação penal, porém, não basta. Enquanto disputar uma eleição significar, para tantas mulheres, expor a si mesmas e às suas famílias à intimidação, muitas vocações políticas continuarão sendo abandonadas antes de chegar à urna.

Os recordes tampouco autorizam euforia. Apenas uma mulher foi eleita governadora em primeiro turno, e outras quatro ainda disputam o segundo. O Acre terá uma Assembleia composta exclusivamente por homens. Distrito Federal, Piauí e Roraima não elegeram nenhuma deputada federal. Mesmo com o melhor resultado da história, as mulheres ocuparão aproximadamente uma em cada cinco cadeiras dos Legislativos brasileiros.

As mulheres são a maioria do eleitorado. Formam a maior parte das pessoas aptas a escolher quem governa e quem legisla e, no entanto, seguem em minoria onde as escolhas se convertem em decisões. A maioria que vota ainda não é a maioria que decide. A democracia representativa pressupõe que os espaços de poder guardem alguma semelhança com a sociedade que representam, e essa semelhança, entre nós, permanece distante. O resultado de 2026 demonstra que o caminho é possível. Demonstra, igualmente, o quanto ainda falta percorrer.

Mariana Melara Reis (Advogada, Conselheira Federal da OAB e Procuradora-Geral de Gramado).

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