GRAMADO – A série “Música de Câmara” no Gramado In Concert, sob a coordenação de Olinda Allessandrini, apresentou na quarta-feira (7) “Efemérides: celebrações anos 21” – uma seleção de compositores nascidos ou falecidos em finais 21. Na escolha foram interpretados Camille Saint-Saens (100 anos de falecimento), Astor Piazzolla (100 anos de nascimento), Bottesini (200 anos de nascimento), Vivaldi (280 anos de falecimento) e Mozart (230 anos de falecimento).
Os artistas responsáveis por essas interpretações e que subirão ao palco pela primeira vez, foram: Fábio Cury (fagote), Alexandre Ritter (contrabaixo acústico), Érico Fonseca (trompete), Leandro Serafim (trompete), Radegundis Feitosa (trompa), Carlos Freitas (trombone) e Luiz Ricardo Serralheiro (tuba). As apresentações emocionaram o público presente e atingiu quase 300 pessoas na transmissão do evento pelo YouTube.
A primeira homenagem foi aos cem anos de falecimento de Camille Saint-Saens, com a obra O cisne “Carnaval dos Animais”. O artista escreveu a canção em 1886 como uma brincadeira para se divertir com os amigos na época do Carnaval. Porém, a peça foi executada somente duas vezes, depois que Saint-Saens proibiu sua execução enquanto vivesse. Ele temia que a divulgação da música “leve e frívola” prejudicasse sua reputação de compositor sério. No Gramado In Concert, quem interpretou a canção foram os músicos Olinda Allessandrini e Paulo Bergmann, no piano a quatro mãos e André Micheletti no violoncelo.
Em trio, a segunda homenagem da noite foi à Astor Piazzolla, pelos seus cem anos de nascimento. Sendo nomeada de “Primavera Porteña”, arranjo para trio por José Bragato, os intérpretes foram André e Cláudio Micheletti e Olinda Allessandrini. A canção, originalmente criada para violino, guitarra elétrica, piano, baixo e bandonéon, faz parte das “Quatro Estações Porteñas” do compositor argentino e que é tida como um contraponto às obras de Vivaldi. O termo “porteñas”, se refere à cidade de Buenos Aires, onde Astor estabeleceu grande parte de sua vida.
A terceira peça, também de Saint-Saens, foi “Sonata para fagote e piano, Op.168 – Allegro Moderato, Allegro Scherzando e Molto Adagio (Allegro Moderato). Os responsáveis por interpretar foram Paulo Bergmann, no piano e Fábio Cury, no fagote. A canção, em tom romêntico, emocionou o público presente.
Homenageando os duzentos anos de nascimento do compositor romântico, maestro e contrabaixista Giovanni Bottesini, a quarta obra apresentada foi “Elegia e Tarantela”, para contrabaixo e piano. As peças foram compostas para serem executadas uma depois da outra. A primeira, uma obra lírica, e a segunda uma dança festiva. Quem prestou a homenagem foram Alexandre Ritter, no contrabaixo acústico e Olinda Allessandrini. Como saxofonista solo, Douglas Braga prestou mais uma homenagem à Astor Piazzolla, desta vez, “Tango Études, nº 1 (Décidé) e nº 2 (Lento Meditativo).
A sexta homenagem da noite foi aos duzentos e oitenta anos de falecimento de “Vivaldi”, com a obra “Tempo Impetuoso Destate (Tempestade de Verão). Trazendo a música barroca em uma das obras mais famosa do compositor, Paulo Bergmann e Olinda Allessandrini, no piano a quatro mãos, conseguiram transmitir toda a simplicidade e criatividade de Vivaldi e permitir uma verdadeira experiência de imaginação sobre uma tempestade de verão.
Em meio a tantas homenagens, não poderia faltar Mozart, visto que, se completam duzentos e trinta anos de seu falecimento. Com a obra “Quarteto de KV 285, para flautas e cordas, I Mov. Allegro”, André e Cláudio Micheletti, Gabriel Marin e Lucas Roballo, transmitiram ao público toda a energia de Mozart em uma de suas composições mais conhecidas.
Encerrando a noite, outra vez prestou-se uma homenagem à Astor Piazzolla. Na versão de “Adiós Nonino”, para instrumentos metálicos, Érico Fonseca, Leandro Serafim, Radegundis Feitosa, Carlos Freitas e Luiz Carlos Serralheiro, tocaram a canção, que segundo Astor, os anjos o inspiraram a escrever. E isso fica bem claro na música que demonstra a inspiração que muitas das vezes não sabemos explicar de onde vem. A obra, foi uma homenagem também à todos os músicos que estão participando do evento e que durante o dia dão aulas no formato online.
A EMOÇÃO DE TOCAR EM CASA
Um dos idealizadores e Coordenador Artístico do Gramado In Concert, Leandro Serafim, afirma que a escolha de tocar Astor Piazzolla se deu com a ajuda de Olinda Allessandrini, que sugeriu dedicar uma das noites a homenagear nascimentos e falecimentos com finais 21 de compositores. “Astor Piazzolla é um representante do tango no mundo. Na obra dele é possível perceber uma linha muito tênue entre a música erudita e a música popular. É uma obra referência”, diz.
Ele aponta que transformar o repertório do artista para outros instrumentos é o mais interessante, se tornando uma ampliação das possibilidades, já que a música foi tocada anteriormente durante o evento, no piano, com Olinda Allessandrini. Lenadro Serafim se emociona ao contar que depois de um ano e alguns meses parados por conta da pandemia de Coronavírus, onde o Gramado In Concert foi o último evento que aconteceu presencialmente e o primeiro que retornou de forma híbrida, este é um momento especial. “A melhor coisa que eu poderia fazer é me reunir depois da pandemia com os colegas e fazer música”, afirma.
Também, ele diz que estar tocando “em casa”, é muito satisfatório. “Nós lutamos para o Gramado In Concert crescer e a ideia sempre foi dar uma continuação a formação dos músicos gramadense, tendo a possibilidade de incluir e de ser mais um evento para a cidade. O Gramado In Concert tem uma dimensão muito grande” – destaca.
Sendo um dos grandes eventos de música clássica e o único a trazer orquestras internacionais (exceto nesta edição por conta da pandemia), Leandro comenta sobre o diferencial do Gramado In Concert. “Ao contrário de outras cidades, nós não realizamos o evento em volta de um grande teatro, mas temos muita boa vontade e com nosso trabalho um dia vamos ter um grande teatro”. Ele afirma ainda que pretende ampliar o evento para quinze dias, mas que isso são objetivos que vão sendo alcançados aos poucos.
A BUSCA PELO DIFERENTE
A inclinação de Fábio Cury para a música surgiu de uma decisão ainda na adolescência, quando começou a estudar músicacom iniciação na flauta doce em sua cidade natal, Jundiaí, em São Paulo. A escolha pelo instrumento pouco conhecido aconteceu a partir da falta de um fagotista e de um trompetista para formar, o que eles chamavam na época, de orquestra. “Eu escolhi o fagote por não saber o que era. Se eu soubesse eu teria escolhido outra coisa”, diz.
Esta é a sua quarta participação no Gramado In Concert e ele diz que foi uma grata surpresa receber o convite e que apostou com todos os idealizadores que teriam condições de realizá-lo mesmo durante a pandemia. Sua trajetória musical é caracterizada pelo ecletismo e por revelar facetas pouco conhecidas de seu instrumento, ao que ele define como: “Eu gosto de tocar repertórios que não são feitos para o fagote. Eu me aventuro a tocar desde a música mais antiga, barroca, até a música mais contemporânea, do nosso tempo”.
Antes de uma apresentação ele diz que o músico nunca relaxa. “A música clássica tem o estigma de ser muito perfeita sempre. Mas ao mesmo tempo falhamos porque arriscamos”.
A ARTE COMO ESSENCIAL A VIDA HUMANA
O contrabaixista Alexandre Ritter tem uma carreira diversificada, tanto como músico sinfônico, como músico de Câmara solista. A escolha por contrabaixo acústico surgiu na infância quando ele e o primo queriam tocar violão para montar uma banda. “Eu acabei me envolvendo nos instrumentos da escola e optei pelo contrabaixo, pela música clássica. Uma coisa puxou a outra”.
Assim como os colegas músicos que estão participando do Gramado In Concert, ele se emociona em voltar aos palcos depois da paralisação das atividades. “A cultura e a arte são essenciais para a vida humana e ela vai permanecer mesmo em situações como essa em que estamos vivendo”. Na apresentação de hoje, ele homenageou Bottesini. “Foi uma escolha em conjunto com a Olinda Allessandrini, eu sugeri a ela essas duas canções. Elegia, uma obra muito bonita e lírica e Tarantela, uma dança muito festiva”, conta.
Ele afirma ainda que a convivência com os colegas músicos tem sido especial. “São professores excelentes, pessoas maravilhosas. Ao compartilharmos nossa arte, nossos medos e anseios, nos acalmamos”, fazendo referência a pandemia. E complementa: “A arte é essencial, ela jamais vai acabar. Ela nos completa, nos faz ter fé e nos ensina a ter resiliência nesses tempos. É uma âncora que nos mantém sãos”.
Complementando os colegas, Radegundis Feitosa e Luiz Ricardo Serralheiro, afirmam que foi um prazer fazer parte das apresentações de homenagem. “Não é uma responsabilidade, é um prazer. Escutamos Astor Piazzolla desde sempre”, diz Luiz Ricardo.
Para Radegundis, a música clássica hoje tem o diferencial de ser interpretada e tratada como ela merece. “Hoje tem uma aproximação da música erudita para o povo e Piazzolla contribui muito para isso”. Eles dizem emocionados que o prazer de subir ao palco de novo é enorme. “A gente sente falta do calor humano”.
ADAPTAÇÃO
Os músicos Érico Fonseca e Carlos Freitas, dizem que buscaram fazer uma adaptação de alguma obra famosa de Piazzolla para o quinteto de metais. “É sempre uma satisfação tocar Piazzolla porque ele tem um leque de obras”, destaca Carlos. Érico complementa explicando que o compositor transita em uma linha muito tênue entre a música popular e a música clássica. “A gente vê as duas tradições bem consonantes em sua obra”.
Participar do evento em uma situação de pandemia é visto como uma oportunidade. “O convite veio de uma forma inusitada e é uma oportunidade da música respirar novamente através do formato online e presencial”, destaca Carlos. Isso, para eles, acaba democratizando a experiência, mas que o online jamais vai substituir o presencial.
PARTICIPAÇÃO
A jovem Natália Blankenheim afirma que conheceu o evento somente no ano passado, onde ela teve a oportunidade de participar das oficinas de canto coral e do concerto de encerramento do Festival.
“Esse ano estou tentando aproveitar ao máximo tudo o que o evento tem a oferecer e é incrível poder estar presente mesmo num momento ainda delicado de pandemia”. Para ela, o mais bacana o cuidado que o evento teve de enfatizar que a música clássica é para todos e não apenas para a “elite”, com ingressos acessíveis e uma grande aula a cada peça apresentada.
Confira a programação:
Dia 8 de julho
Caminhos da Música – Entre Cordas e Sopros
A música de câmara será a condutora neste passeio por diferentes paisagens musicais. Na escolha entre Cordas e Sopros, são priorizados os Sopros, seja em madeiras ou metais. Partindo da suavidade da flauta, o programa vai sendo enriquecido por diferentes timbres, e encerra com o empolgante quinteto de metais.
Dia 9 de julho
Música séria ou divertida? Um convite à emoção.
Este programa abre com Beethoven e Villa-Lobos, em obras musicais de períodos contrastantes, carregadas de história e de emoção. Em seguida, propostas musicais divertidas, em que o bom humor aquece o palco!
Dia 10 de julho
Concerto de encerramento.
Ingressos presenciais:
As trocas devem ser feitas diretamente na Rua São Pedro, 185, no bairro Centro, em Gramado. Das 9 horas (da manhã) às 17 horas (fechando ao meio dia), de segunda a sexta-feira. Mais informações no telefone 3286 7343 ou 3286 2002.
Assista o evento online e gratuitamente:
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Mais informações e programação completa: www.gramadoinconcert.com.br












