A canelense Norma Jentz usou a Tribuna do Povo da sessão da Câmara de ontem à noite para relatar uma situação que vem enfrentando em sua moradia, no Loteamento Edgar Hack. Ela adquiriu um terreno no local e construiu uma residência. Neste período, contou com o abastecimento de água fornecido no local pela Prefeitura, com caminhão-pipa. Porém, após ir morar no local, não recebeu mais um único copo d’água, sendo que a situação persiste há mais de 15 dias.
A fala de na Tribuna do Povo, na Câmara de Canela, não pode ser ouvida apenas como mais uma reclamação de uma moradora. Ela precisa ser ouvida como o desabafo de uma trabalhadora que está tentando, com todas as suas forças, conquistar aquilo que talvez seja o maior sonho de quem vive do próprio trabalho: ter uma casa para chamar de sua.
Norma foi à tribuna para contar que trabalha muito. Muito mesmo. Disse que chegou a passar 12 noites seguidas no hospital, acompanhando uma idosa, praticamente sem dormir, para ter como pagar o pedreiro. Falou dos seus empregos, das suas obrigações e do esforço diário para pagar aquilo que assumiu.
A frase que mais chama atenção foi simples e carregada de significado:
“Eu sou uma trabalhadora.”
É isso que ela queria que todos entendessem.
Ela não está contando uma história de quem ganhou uma casa. Está contando a história de quem está tentando comprar a própria independência com o dinheiro do seu trabalho.
Norma disse que investiu cerca de R$ 68 mil, pagou R$ 50 mil de entrada, assumiu parcelas de R$ 800 e ainda tem dois anos de compromissos pela frente. O dinheiro que juntou é fruto de um acordo de trabalho de 10 anos. Tudo isso para sair do aluguel. Para deixar de entregar, todos os meses, uma parte importante do fruto do seu trabalho para pagar por um teto que nunca será seu.
Essa é uma realidade que muita gente conhece.
O trabalhador passa anos pagando aluguel. Trabalha para pagar aluguel, paga aluguel para poder trabalhar e, quando consegue juntar algum dinheiro, tenta construir ou comprar alguma coisa que seja sua. É uma luta pela independência. Não é luxo. Não é ostentação. É sobrevivência com dignidade.
Por isso, outra frase dita por Norma merece ser registrada:
“Eu comprei. Eu não invadi aquilo ali.”
Pode haver discussão sobre a situação daquela área, sobre documentos, licenças, regularidade da construção ou qualquer outra questão que precise ser analisada pelo poder público. E, se houver alguma irregularidade, que ela seja esclarecida e resolvida dentro da lei.
Mas existe uma pessoa no meio disso tudo.
Uma mulher que trabalha, que paga suas contas, que assumiu compromissos e que está tentando terminar sua casa para não precisar continuar pagando aluguel.
E agora, segundo seu relato, está há 15 dias sem água.
É aí que a burocracia precisa encontrar a humanidade.
Não estamos dizendo que a lei deva ser ignorada. Muito pelo contrário. A lei precisa ser respeitada. Mas o poder público também precisa enxergar quem está do outro lado do processo.
Norma não foi à Câmara pedir privilégio. Foi pedir água.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais doloroso de sua história: depois de trabalhar tanto para conquistar uma casa, depois de assumir uma dívida e comprometer anos da própria vida para pagá-la, ela ainda não consegue viver nela com o mínimo de dignidade.
A casa própria é o sonho de quem trabalha.
Para alguns, ela é patrimônio. Para outros, investimento. Para Norma, pelo que contou na tribuna, ela é simplesmente a possibilidade de parar de pagar aluguel e finalmente ter um lugar que possa chamar de seu.
O que ela não imaginava é que, depois de realizar esse sonho, começaria um pesadelo de algo tão básico e inimaginável: a falta de água.
Segundo seu relato, o caminhão-pipa passa pela vizinhança duas vezes por semana, abastecendo os moradores. Ela, porém, seria a única que não recebe água.
E aí a situação ganha contornos ainda mais difíceis de compreender. Não estamos falando de uma moradora que pede tratamento especial. Estamos falando de uma mulher que afirma estar vendo o caminhão abastecer os vizinhos e que, mesmo assim, fica sem água.
Na própria Câmara, diante do relato, o vereador Alberi resumiu a situação dizendo que “alguém está pegando no teu pé”.
Se essa é realmente a situação, é preciso perguntar: que tipo de tratamento está recebendo uma mulher que trabalhou tanto, assumiu compromissos, sacrificou noites de sono e investiu o que conseguiu juntar para conquistar sua independência?
É preciso olhar para essa história com atenção. Não apenas para saber quem tem razão juridicamente, mas para não esquecer que, por trás de cada documento, cada terreno, cada obra e cada decisão administrativa, existe gente.
E gente que trabalha muito também merece ser ouvida.
Principalmente quando o que está pedindo não é uma casa, não é dinheiro, não é privilégio. É apenas água para poder viver na casa que batalhou tanto para conquistar.










