GRAMADO – Pela ponta do nanquim bico-de-pena, Giovanni Bochi explana seu talento em grandes obras inspiradas na arte clássica. O artista já expôs seus desenhos em algumas cidades europeias, entre elas, Paris, Barcelona, Porto e Florença. Suas obras carregadas de detalhes, história e capricho já estiveram no Museu do Louvre em três oportunidades, local em que está exposta a Monalisa e que recebe, em média, 15 mil visitantes por dia, sendo o museu mais visitado do mundo.
Giovanni conversou com a reportagem do Jornal Integração e contou sua história e como recebeu o convite para expor no Museu do Louvre. Também falou sobre seu primeiro contato com a arte, sua mudança para Gramado, entre outros assuntos.
PRIMEIRO CONTATO – O desenhista porto-alegrense teve seu primeiro contato com a arte aos três anos de idade, em um teste para a pré-escola, quando uma professora pediu para ele fazer um desenho simples de um barco. “Minha mãe conta que a pedagoga me sugeriu a desenhar alguma coisa que eu gostasse. Então, disse que ia desenhar um barquinho e acabei desenhando uma Caravela, (a Caravela é um tipo de embarcação usada pelos portugueses durante a Era dos Descobrimentos, nos séculos XV e XVI), e ela saiu impressionada com o desenho na mão. Foi ali que eu comecei a desenhar”, revela ele.
A primeira exposição foi ainda no colégio aos 12 anos. Idealizado pelos professores, o evento reuniu pais e alunos que aprovaram as artes do jovem artista. Ele conta que, ao fim da solenidade, um dos pais o convidou para expor suas obras no Shopping Bourbon, o que viria a ser a sua primeira exposição profissional. “Ali eu já peguei links para outras exposições, participei de uma reportagem e fui chamado para um programa de TV. A partir dali, eu passei a ganhar dinheiro vendendo os meus quadros, minhas artes. Naquela época parei de usar a caneta BIC e passei a usar o nanquim, buscando ter mais durabilidade nas obras. Com o tempo, se for feito com a BIC, vai evaporar, já o nanquim é pra vida toda”, explica Bocchi.
Ele se formou no Ensino Médio aos 17 anos e começou a cursar arquitetura na Pontifícia Universidade Católica (PUC), paralelamente, ao serviço de ilustrador, designer náutico e arquiteto na Revista Náutica do Brasil, que prestava desde os 14 anos e ficou até os 21 anos.
Convite para expor no Museu do Louvre

Giovanni conta que, em 2013, aos 21 anos trancou a faculdade e rumou até a cidade de Florença, na Itália, onde ficou por dois meses para cursar a História da Arte pela Academia Europeia di Firenze.
Em terras italianas, Bocchi foi convidado para expor seus quadros na Academia de Belas Artes por curadores que gostaram de suas obras. “Nesta ocasião, uma senhora foi visitar a galeria e me disseram que ela era curadora de artes, ok. Ela gostou demais do meu trabalho, então, dei um desenho de presente para ela sem saber quem era. A senhora me agradeceu e ficou por isto, voltei da Itália e até tinha esquecido a ocasião. Um ano depois, em 2014, recebo um e-mail com um convite para uma exposição para o Museu do Louvre. Eu olhei aquele convite e pensei que era piada, lorota. Liguei para o número no e-mail com 99% de chance de ser falcatrua e 1% de chance de ser verdade, e era quente mesmo. Aquela senhora era curadora do Louvre e queria que eu colocasse meu trabalho lá. Eu quase enfartei com a notícia, imagina, eu trabalhava expondo meu trabalho no brique da redenção ou pagava caro um aluguel de um shopping. Quem era eu, um mero mortal, para expor no Louvre”, opinou ele.
Por ser estudante e arcar integralmente com a mensalidade da faculdade, Giovanni não tinha dinheiro para bancar uma viagem até Paris, então, apostou em um sorteio que estava sendo realizado pela marca Kit Kat, que proporcionaria ao ganhador uma viagem com tudo pago até a capital francesa. “Ir pra Paris não é assim, pensei até em vender meu carro. Eu estava no shopping, feliz por ser convidado e triste por não poder ir, e vi esta promoção que daria a viagem na data da exposição. Cada dois chocolates, se ganhava um cupom. Eu comprava e vendia na faculdade a preço de custo só para voltar no shopping e comprar mais. Eu comprei mais de 200 cupons. Em cada um deles fiz um desenho no verso, para que na hora do sorteio eu já soubesse que era meu, só não fiz em alguns. No dia do sorteio, a mulher pegou justamente um destes, na hora fiquei triste, mas em seguida eu ouvi meu nome e pude ir ate a França”, revelou o artista que esteve, além de 2014, em 2015 e 2017 no Carrousel du Louvre, sob a mesma curadoria. Na oportunidade, outros 19 artistas brasileiros também participaram do evento, entre eles, Romero Britto e Francisco Brennand.
Aos 29 anos, Giovanni se diz realizado profissionalmente, mas ainda cultiva o desejo de voltar a Europa para poder comercializar suas obras no velho continente.
PRODUÇÃO – De acordo com Giovanni, a produção das obras começa pelo rascunho, segue pelos detalhes e é finalizada pelos complementos, além dos estudos e pesquisas que são realizados antes do começo do trabalho. “Meu trabalho não é de um copista. Por exemplo, se eu for desenhar o mapa Medieval da Inglaterra, do período dos Anglo-saxões, eu não vou copiar o mapa daquela época, mas eu vou pegar quatro ou cinco mapas da época, os nomes e ver como eles viam a Inglaterra naquele tempo e criar uma nova versão, como se eu fosse um cartógrafo daquele período. Assim é o processo”, contou.

Mudança para Gramado
Nascido e criado em Porto Alegre, o desenhista mudou para a Serra Gaúcha em meados de 2015, após uma crise familiar. “Eu estava em Porto Alegre passando por uma situação difícil. Não estava conseguindo pagar minha faculdade, minha avó tinha falecido e minha família estava desestruturada. Meu amigo disse: vem pra Gramado mostrar teu trabalho. E eu vim. Foi a melhor decisão que eu tomei na minha vida”, declarou.
Após um ano residindo em Gramado, ele percebeu que não havia um local exclusivo para exposição de artes e inaugurou uma galeria. “Estava faltando algo para isso. Como eu não tinha cacife pra montar um museu, montei uma galeria, mas meu sonho é montar um museu. Se um dia eu achar patrocinadores, vou montar. Tenho o projeto e acho que deveria existir um museu/galeria municipal”, revelou. Paralelamente a abertura do estabelecimento, ele foi chamado para redesenhar o parque Mini Mundo, sendo o primeiro trabalho assinado por Bocchi em Gramado. “Quando era pequeno, eu vinha no Mini Mundo e sempre quis desenhar aquele local. Quando eu fiz, isso começou a abrir portas por aqui”, disse.
Com a pandemia, Giovanni precisou fechar a loja e, atualmente, expõe seus desenhos na Rua Coberta chamando a atenção de turistas e moradores, que ficam impressionados com as obras, que vão de um mapa mundi detalhado com personalidades históricas até a representação do Castelo de Hogwarts, do filme Harry Potter. “Eu busco fazer o melhor e ainda assim ganhar com a minha arte. Não adianta eu fazer uma que tenha excelência, mas que ninguém entenda. Então, tenho que fazer uma arte legal, que as pessoas gostem e queiram. Todos os artistas, historicamente, fizeram isto”, ponderou ele.
Para quem quiser prestigiar o artista, ele fica de sexta à domingo, a partir das 18h, na Rua Coberta, desenhando e comercializando suas obras.
Texto: Leonardo Santos – [email protected]