Tudo começou em 1976, quando o empresário Jaime Prawer, fundador do Café Colonial Bela Vista (em 1952) e da Fábrica de Chocolates Prawer, reconhecendo o talento da doceira Lira Caliari, que era sua funcionária na empresa, e a ousadia empreendedora de seu marido Osmildo, os convidou para serem seus sócios no café. “Quando recebeu a proposta de ser sócio do seu Jaime Prawer, ele pegou a única coisa que tinha, que era uma casa, vendeu e colocou no negócio. Ali começou a história de empreendedorismo dele”, conta Anderson.
Como o chocolate acabou dando muito certo na cidade, seu Jaime acabou se dedicando a este negócio e vendeu sua parte do Bela Vista a Caliari. Com o tempo o chocolate e o café colonial acabaram se tornando marcas de Gramado, uma espécie de destino turístico, pois os visitantes acabaram pegando o hábito de vir à cidade para apreciar as duas experiências gastronômicas, que acabaram alavancando o turismo regional, fazendo par ao Festival de Cinema. Até que, em 2006, 30 anos depois, “já um pouco cansado de trabalhar sábados, domingos e feriados, sempre em ritmo frenético”, seu Osmildo decidiu passar a gestão do Bela Vista aos filhos, Anderson e André. Os dois já tinham adquirido alguma experiência empresarial, mesmo que em negócios que acabaram não dando muito certo. André já era consultor de empresas.
O primeiro negócio de Anderson, aos 19 anos, foi uma sociedade na Academia Corpus, depois pôs uma loja de couros, mas em 2006 também fechou, pois o negócio não estava lucrativo e aceitou assumir o Café Colonial Bela Vista. “Momento em que se iniciou uma mudança, de profissionalização na família Caliari”, lembra Anderson. Como os dois eram formados em terceiro grau, imaginaram que iriam “bombar”, colocando em prática o que aprenderam na faculdade, mas não foi bem assim, foi necessário aprender lidar com o negócio na prática, conforme explicou. “A gente viu que não era tão simples assim, como na teoria. Ali a gente teve um tempo em que tivemos de aprender como era gerir uma empresa. Porque quando você faz um curso de administração, a gente vê lá as empresas, é lindo, maravilhoso. Todos os professores vão lá e falam o seguinte: Ah, vamos olhar aqui a empresa listada em bolsa, olha que lindo, tem governança corporativa, tem controle, tem o organograma mais lindo do mundo, tem profissionais trabalhando, tem conselho, etc.”. Mas que, em empresas familiares, há um desafio extra, que é fazer esse conhecimento ser útil.
Desde logo os irmãos passaram a estudar alternativas de crescimento, onde chegaram a pensar até em fazer franquias do Bela Vista, mas não deu certo. Outra tentativa frustrada foi uma indústria de congelados em busca de um negócio lucrativo, mas que livrasse os finais de semana e feriados, pois não queriam para si, o que seus pais enfrentaram durante 30 anos. “Mas também não deu certo. Foi um caos na verdade, tivemos que pagar tudo o que era conta e atrasou e era uma briga”. Ali, lembra que o pai, “muito lapidado, compreensivo e tranquilo, com perfil calmo” (ironizando) o elogiou: “Tu é um burro”. “Esse era o nosso elogio, mas são coisas que foram ajudando a gente a amadurecer dentro das empresas”, reconhece. E seguia a interrogação sobre o que fazer para crescer, pois embora o negócio do Café fosse consolidado e eles eram formados tecnicamente, estava demorando encontrar uma alternativa, pois eram sabedores de que só o Bela Vista não comportaria toda a família. “A gente não vai pôr filho de um, filho do outro, filho do outro, todo mundo trabalhar, um vai ser garçom, outra doceira etc., não tem como”.
No Café, lembra Anderson, os turistas sempre perguntavam de neve, já que muitas vezes eram anunciadas pela mídia, mas acabavam não acontecendo. E também perguntavam muito sobre atrações em dias de chuva. Com isso na cabeça, em 2007, numa viagem a Bariloche, onde conheceram o Skibunda, juntaram o tico e o teco. Concluíram que Gramado precisava de um parque de neve indoor, que pudesse ser frequentado em dias de chuva e que nevasse o ano todo. Foi quando começaram a pesquisar e encontraram uma referência, em Dubai. Intensificaram as pesquisas em viagens pelo mundo, descobrindo os técnicos.
Após muitas tentativas e estudos sobre como fazer o tal parque de neve e quando finalmente isso ficou esclarecido, havia um obstáculo ainda maior: o orçamento. Pois todos vinham em euros, eis que a tecnologia estava na Europa. Além de serem altos, de 20 milhões de euros acima, na conversão isso se multiplicava cerca de dez vezes. E, no Brasil ninguém tinha experiência em parque de neve.
Até que, em 2010, após três anos de buscas, conheceram um holandês casado com uma brasileira e que morava no Brasil, que planejava instalar um parque destes em São Paulo. Este veio conhecer Gramado e aceitou fazer uma parceria, trazendo a tecnologia da Europa. Assim, com a parceria e colaboração de várias pessoas foi possível viabilizar a implantação do Snowland.
Hoje, o parque de neve é um sucesso, eis que mais de dois milhões de pessoas já o visitaram e já há planos para ampliação. Com esse empreendimento se consolidando foi possível dar novos passos, com o Gramado Parks, Gramado Termas, entre diversos outros Brasil afora, chegando a mais de mil colaboradores. “Nossa ideia é melhorar o destino onde a gente está, então Gramado como nosso destino mãe, a gente sempre procura valorizar.
No final Anderson deu uma pitadinha sobre o que a sociedade de Gramado muitas vezes comenta sem uma análise coerente. “Eu me lembro de uma época, sobre uma fábrica de móveis da cidade, falavam que era a máfia italiana que estava injetando dinheiro. Nós aqui, é o Edir Macedo que está colocando dinheiro na Snowland. Acho que o gramadense tem que começar a assumir que é um povo que trabalha muito. Todos nós trabalhamos muito. A gente não precisa atrelar as conquistas dos outros a fatores fantasiosos. Para todo mundo funciona do mesmo jeito, é começar as seis da manhã e ir até onde for preciso”.