InícioColunistasReforma tributária: a conta que chegou para as empresas de tecnologia

Reforma tributária: a conta que chegou para as empresas de tecnologia

Tempo de leitura: < 1 minuto

Coluna publicada no dia 29/08.

Por Phillip Handow Krauspenhar, advogado tributarista

A tão aguardada Reforma Tributária chegou, trazendo promessas de um sistema mais simples, transparente e justo. Com a criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), o objetivo declarado é acabar com a complexidade de tributos como PIS, Cofins, ICMS e ISS. A ideia de unificação soa como música para os ouvidos de qualquer empresário. Contudo, para o setor de tecnologia, essa melodia pode terminar em um ruído bastante desagradável.

O que parecia ser um caminho para a modernização fiscal pode se revelar uma verdadeira armadilha, especialmente para empresas que operam com softwares como serviço (SaaS), computação em nuvem e uma vasta rede de prestadores de serviços terceirizados. A nova realidade, ao que tudo indica, trará um aumento expressivo e preocupante na carga tributária para um dos setores mais dinâmicos da nossa economia.

O problema central não está apenas na nova alíquota, estimada em 28%, mas na drástica mudança das regras para o aproveitamento de créditos. Hoje, uma empresa de tecnologia no regime do Lucro Real consegue abater do seu imposto a pagar os valores de PIS e Cofins sobre serviços contratados, mesmo que o fornecedor seja optante do Simples Nacional. Com a reforma, essa possibilidade desaparece. Créditos só serão gerados se o fornecedor também pagar o IBS e a CBS na sua totalidade.

Essa mudança impacta diretamente a estrutura de custos do setor. Empresas de tecnologia frequentemente dependem de uma rede de profissionais e pequenas empresas, muitos deles enquadrados no Simples Nacional ou atuando como pessoas físicas. Com a nova regra, o custo de manter esses parceiros aumenta, pois eles não gerarão os créditos necessários para abater o imposto que a empresa de tecnologia pagará sobre sua receita.

O resultado é um desequilíbrio fiscal, afinal, paga-se muito na saída e recupera-se muito pouco na entrada.

Para entender o tamanho do impacto, uma simulação baseada em dados reais é assustadora. Uma empresa de software com faturamento de R$ 100.000,00, que hoje tem uma carga tributária líquida de aproximadamente R$ 3.905,00, passaria a arcar com um valor de R$ 24.579,00. Estamos falando de um aumento de mais de 500% no imposto a ser pago. É uma cifra que pode inviabilizar operações e frear o crescimento de muitas startups e empresas consolidadas.

Como se não bastasse, a reforma introduz o mecanismo do split-payment. Na prática, o imposto será recolhido automaticamente no momento em que o cliente pagar pela fatura. Por outro lado, o crédito que a empresa tem direito ao contratar um serviço, como o de computação em nuvem, só poderá ser utilizado 60 dias depois. Isso cria um descasamento perigoso no fluxo de caixa, com o empresário pagando o imposto de seus fornecedores na frente para só recuperar esse valor dois meses depois, financiando o governo nesse intervalo.

Diante desse cenário, surge a dúvida de repassar o custo para o cliente.

A resposta é complexa. Se o cliente também for uma empresa que pode se creditar do novo imposto, o aumento no preço bruto pode ser neutralizado. O valor final da nota será maior, mas o custo líquido para o cliente pode até diminuir. O desafio, portanto, não é apenas financeiro, mas também de comunicação. Será preciso educar o mercado, renegociar contratos e treinar equipes comerciais para explicar essa nova lógica.

A gestão fiscal também precisará evoluir. O controle que antes era feito em planilhas ou por acompanhamentos mensais se tornará insuficiente. Será necessário monitorar em tempo real a carga tributária por cliente, o percentual de créditos perdidos por tipo de fornecedor e o impacto de tudo isso na margem de lucro. A tecnologia, que agora enfrenta um desafio tributário, terá que ser a própria solução para gerenciar essa nova complexidade.

Em resumo, a Reforma Tributária, embora bem-intencionada em seus princípios, parece não ter considerado as particularidades do setor de serviços e tecnologia. A mudança exigirá muito mais do que uma simples adaptação contábil, forçará uma reconfiguração completa de modelos de negócio, parcerias estratégicas e planejamento financeiro.

Para as empresas do setor, a hora de agir é agora. É preciso simular cenários, reavaliar a cadeia de fornecedores e preparar a empresa para uma nova era fiscal.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Empresária de Canela denuncia tentativa de golpe com PIX falso

Uma empresária do ramo de confeitaria em Canela procurou a reportagem do Jornal Integração para relatar uma nova tentativa de golpe envolvendo pagamentos via...

IGP confirma feminicídio seguido de suicídio em Canela

A tragédia que abalou a comunidade de Canela no final de julho teve nesta semana uma confirmação oficial. Os laudos técnicos do Instituto-Geral de...

Trabalhadores dos Correios entram em greve contra retorno de gestor

Os trabalhadores do Centro de Distribuição dos Correios de Gramado e Canela (CDD hortênsias) estão em greve desde segunda-feira (18) em protesto contra o...

Dono de restaurante em Canela morre aos 47 anos após mal súbito

Gabriel Sarago Cattólica, 47 anos, faleceu neste sábado (9) após sofrer um mal súbito pela manhã, de acordo com a Brigada Militar. Ele era...

Trânsito é liberado na Estrada Velha após adiamento de obras da Corsan

O secretário de Obras, Tiago Procópio, confirmou à reportagem que a Rua Emílio Leobet, conhecida como Estrada Velha, está totalmente liberada para o tráfego...
error: Conteúdo protegido