CANELA – O teatro tem o poder de provocar sorrisos, despertar emoções e fazer o público refletir. Essa força da arte ganhou um significado ainda mais especial com o espetáculo “Não Guarde Esse Segredo”, que levou ao palco do Teatro Municipal (Tetrão) uma mensagem fundamental: nenhuma criança deve enfrentar sozinha uma situação de violência, e falar pode ser o primeiro passo para encontrar ajuda e proteção.
Apresentada durante a semana passada, a peça reuniu estudantes de escolas municipais e estaduais em uma iniciativa de conscientização e prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes. Por meio de histórias conhecidas do universo infantil, música e uma linguagem lúdica, os artistas Allison Ariel e Maria Cristina da Silva encontraram uma maneira sensível de abordar um assunto delicado, mas que precisa ser discutido por toda a sociedade. O espetáculo surgiu a partir de uma solicitação do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Canela.
A quarta edição do projeto trouxe também um novo desafio: alertar sobre os perigos que podem estar escondidos nas telas dos celulares, nos jogos on-line e nas redes sociais. Mais do que apresentar situações de risco, o espetáculo procurou mostrar às crianças que elas têm o direito de se proteger, de pedir ajuda e, acima de tudo, de serem ouvidas.
A magia do teatro
A ideia de transformar um tema tão complexo em arte surgiu em 2022. Desde então, o projeto cresceu, ganhou novas abordagens e passou a dialogar com diferentes realidades vividas pelas crianças.
Alisson Ariel explicou que a proposta nasceu da vontade de utilizar o teatro e a música para tratar de assuntos difíceis de uma forma acessível ao público infantil.
“Ele existe, está aí no mundo, a gente precisa tocar nesse assunto. Então, por que não fazer de uma forma leve e lúdica através do teatro e da música?”, destacou o ator.
Para Maria Cristina da Silva, o teatro permite que o público se envolva com as histórias e compreenda mensagens importantes sem que a abordagem perca a sensibilidade. A escolha dos contos de fadas foi justamente uma forma de aproximar o tema do universo das crianças.
Personagens conhecidos, como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e Bela Adormecida, ajudam a construir situações simbólicas que despertam a atenção para possíveis sinais de perigo. A partir dessas referências, os artistas apresentam orientações sobre limites, proteção do corpo e a necessidade de reconhecer comportamentos inadequados.
A proposta é mostrar que situações de violência não acontecem apenas em lugares distantes ou desconhecidos. Como alertam os próprios artistas, pessoas mal-intencionadas podem estar mais próximas do que se imagina.

Quando o perigo está na tela
Jogos on-line, pedidos de amizade de desconhecidos, exposição da rotina nas redes sociais e o contato com pessoas que escondem suas verdadeiras intenções estão entre os temas abordados.
Alisson relatou uma experiência que reforçou a importância desse alerta. Ao criar um perfil em um jogo on-line para preparar uma cena do espetáculo, utilizando um personagem inspirado na Chapeuzinho Vermelho, recebeu quatro pedidos de amizade de crianças de escolas.
O episódio chamou a atenção do ator para a facilidade com que adultos podem entrar em contato com crianças nesses ambientes. “Eu sou um adulto que está no jogo, que só entrou lá para fazer uma cena que eu precisava para a nossa tela. Então, olha como é perigoso isso”, relatou.
Os artistas fazem questão de ressaltar que a intenção não é condenar os jogos, os celulares ou as redes sociais, mas incentivar o uso consciente e acompanhado da tecnologia. O alerta também se estende aos pais e responsáveis, que precisam participar da vida digital dos filhos.
A coragem de falar muda a história
Um dos momentos mais emocionantes do espetáculo está na história de João. Ao entrar na casa de uma personagem que tenta tocar seu corpo e exige que ele mantenha o ocorrido em segredo, o menino percebe que há algo errado.
“A cena aborda não apenas a violência, mas também o medo, a vergonha e o sofrimento que podem impedir uma criança de procurar ajuda. A narrativa mostra que guardar esse segredo pode aprofundar a dor e que existem pessoas dispostas a ouvir, acolher e proteger”, alertou o ator.
A história também aborda o sofrimento emocional que pode surgir após uma violência e a importância de buscar apoio. Na cena, a presença de uma figura acolhedora simboliza que a criança não está sozinha e que pode encontrar ajuda em diferentes pessoas de confiança.
A mensagem vai além da proteção física. É também um chamado para que adultos estejam atentos às mudanças de comportamento, acolham os relatos sem julgamentos e levem a sério aquilo que as crianças têm a dizer.
Desabafo de uma criança emocionou os artistas
Se o palco é o lugar onde as histórias ganham vida, foi no diálogo após a apresentação que o projeto mostrou a dimensão de seu alcance.
Ao final das sessões, Alisson e Maria Cristina conversaram com os estudantes, responderam a perguntas e ouviram dúvidas e relatos. Em uma dessas ocasiões, uma criança começou a compartilhar uma situação familiar delicada que havia vivido.
O menino não perguntou se poderia falar. Simplesmente começou a desabafar, diante dos artistas e das pessoas que estavam no teatro.
O ator contou que, apesar da tristeza diante da situação relatada, ficou marcado pela coragem da criança em colocar para fora algo que a incomodava. Alisson Ariel decidiu fazer uma pergunta direta: se a criança havia recebido ajuda.
A resposta veio acompanhada de um gesto que emocionou o artista. Segundo ele, a criança respirou aliviada antes de responder que havia recebido muita ajuda. “Eu acho que no momento que tu tem esse tipo de resposta, tu vê que o trabalho está sendo feito”, afirmou.
Rede de proteção precisa estar presente
Durante a entrevista, os artistas destacaram a importância de fortalecer a rede de apoio formada por familiares, professores, profissionais da psicologia e órgãos de proteção.
A escola ocupa um papel importante nesse processo, por ser um espaço frequentado diariamente pelas crianças e onde sinais de sofrimento podem ser percebidos. A orientação é que estudantes procurem um adulto de confiança sempre que algo os deixar desconfortáveis ou quando precisarem contar uma situação de violência.
Alisson também ressaltou que o desenvolvimento do espetáculo contou com conversas e contribuições de profissionais e instituições, incluindo a Polícia Civil (PC) e psicólogos. Esse diálogo ajudou a construir uma abordagem cuidadosa, que considera tanto a prevenção quanto o acolhimento de crianças que já passaram por situações de violação de direitos.
O ator ainda fez um apelo para que outras Prefeituras incentivem iniciativas semelhantes. “É nossa obrigação cuidar das crianças, e essa é uma forma que a gente tem de fazer isso”, destacou.
O silêncio não pode ser maior que a proteção
Ao longo da semana, o Teatro Municipal se transformou em um espaço de aprendizado, acolhimento e reflexão. Entre personagens conhecidos, momentos de descontração e cenas que exigem atenção, crianças e adolescentes receberam uma mensagem que precisa ultrapassar as paredes do teatro.
“O projeto “Não Guarde Segredo” lembra que a prevenção da violência é uma responsabilidade coletiva. Exige informação, diálogo, atenção dos adultos e uma rede de proteção preparada para acolher quem precisa”, disse Maria Cristina.
Para Alisson Ariel e Maria Cristina da Silva, cada pergunta feita pelos estudantes e cada conversa após as apresentações reforçam a importância de manter o projeto vivo e ampliar seu alcance. Os artistas já consideram abordar outros temas em futuras edições, como violência doméstica e bullying.
“A mensagem que fica para cada criança é simples, mas poderosa: se algo acontecer, não é culpa sua. Procure alguém de confiança, conte o que aconteceu e peça ajuda. Você merece ser protegido, ouvido e acolhido.
Porque, quando uma criança encontra coragem para falar, é dever dos adultos escutar. E quando o silêncio é rompido, a proteção pode finalmente começar”, finalizou a atriz.










