CANELA – A situação do Hospital de Caridade de Canela (HCC), foi tema de uma reunião-almoço na quarta-feira (11), realizada pela Associação Comercial e Industrial de Canela (ACIC). Durante o encontro, no Tri Hotel, o interventor do hospital que assumiu há 45 dias, Cezar Chavez, apresentou um diagnóstico da instituição e afirmou que a regularização do alvará sanitário é hoje o principal passo para que o hospital possa ampliar atendimentos e melhorar sua situação financeira.
Segundo ele, o hospital enfrenta uma crise estrutural, administrativa e financeira, com déficit mensal aproximado de R$ 670 mil. A instituição se mantém basicamente com repasses do Sistema Único de Saúde (SUS), do governo estadual e, principalmente, da Prefeitura de Canela, uma vez que atualmente só atende pelo SUS.
“Hoje o hospital praticamente não tem renda própria. Ele funciona com recursos públicos e não consegue vender serviços para outros municípios ou para planos de saúde porque não tem o alvará sanitário”, explicou.
De acordo com o interventor, a falta do documento impede que o hospital amplie convênios, renegocie contratos com planos de saúde ou ofereça exames a outros municípios da região. O exemplo que salta aos olhos e que nem mesmo a própria Secretaria de Saúde de Canela, pode prestar serviços, mesmo tendo disponibilidades de exames em seus equipamentos.
“Temos equipamentos como tomografia e raio-x que poderiam gerar receita, mas não conseguimos faturar porque não temos o alvará. Hoje parte desses serviços está ociosa”, afirmou.
Hospital funciona sem alvará sanitário
Chavez revelou que o hospital não possui alvará sanitário regular há anos. Uma vistoria realizada pela 5ª Coordenadoria Regional de Saúde apontou 202 irregularidades, entre problemas estruturais e falhas em processos internos.
Segundo ele, a maioria dos pontos já começou a ser corrigida, mas ainda são necessárias adequações para obter ao menos um alvará provisório.
“Estamos falando de trocar portas do bloco cirúrgico, ralos, luminárias e fazer pequenas reformas. São ajustes simples, mas necessários para cumprir as exigências sanitárias”, explicou.
O custo estimado para essas adequações é de cerca de R$ 100 mil, valor considerado suficiente para resolver as pendências mais urgentes e permitir a liberação do documento.
Hospital poderia arrecadar mais de R$ 4 milhões por ano
O interventor afirmou que, com o hospital regularizado, seria possível ampliar a oferta de exames e serviços, inclusive para municípios da região.
A estimativa apresentada na reunião aponta que o hospital poderia gerar mais de R$ 4 milhões por ano em receitas, o que reduziria significativamente o déficit da instituição.
Como exemplo, Chavez citou um período recente em que o Hospital de Gramado precisou utilizar o tomógrafo de Canela.
“Em 11 dias realizamos exames e arrecadamos cerca de R$ 48 mil. Isso poderia acontecer com frequência se estivéssemos regularizados”, disse.
Novos projetos podem ampliar receitas
Além da regularização do alvará, o hospital também trabalha em projetos para ampliar serviços e receitas.
Um deles é a criação de leitos psiquiátricos, que devem ser implantados na área hoje utilizada pela pediatria. A proposta prevê cerca de dez leitos destinados ao atendimento de pacientes com transtornos mentais.
“Hoje já atendemos pacientes psiquiátricos, mas em leitos comuns e praticamente sem retorno financeiro. Com os leitos cadastrados no SUS, cada um pode gerar cerca de R$ 4 mil mensais”, explicou.
Outro projeto é a implantação de um centro de parto normal, com investimento estimado em R$ 3 milhões, recursos que devem ser financiados pelo governo estadual.
Segundo Chavez, com esse projeto em funcionamento o hospital poderia aumentar sua arrecadação em cerca de R$ 1,7 milhão por ano.
Hospital ainda sofre impactos da Operação Caritas
O interventor também relatou dificuldades administrativas herdadas de investigações anteriores envolvendo a instituição.
Segundo ele, após a Operação Caritas, parte da documentação e equipamentos do hospital foi recolhida, o que prejudicou a organização administrativa.
“Hoje nós não temos a memória administrativa do hospital. Muitos documentos antigos não estão disponíveis e tivemos que praticamente reorganizar a gestão do zero”, afirmou. Chavez disse que foi a delegacia duas vezes, mas que o computadores não foram localizados para a devolução.
Apelo à comunidade e aos empresários
Durante a reunião, Chavez fez um apelo para que a comunidade e o setor empresarial se mobilizem para ajudar o hospital a resolver os problemas mais urgentes.
“Sem o apoio da comunidade nós não vamos muito longe. O hospital é de todos”, afirmou.
Empresários presentes sugeriram a possibilidade de doações de materiais e serviços para auxiliar nas reformas necessárias à obtenção do alvará.
Prefeitura também enfrenta dificuldades financeiras
Representantes da administração municipal que participaram do encontro ressaltaram que o município já destina recursos significativos ao hospital e enfrenta limitações orçamentárias.
Segundo dados apresentados na reunião, a prefeitura repassou cerca de R$ 39 milhões ao hospital no último ano.
Mesmo assim, a instituição continua operando com déficit mensal. “Hoje cem mil é bastante dinheiro para a prefeitura”, disse um dos secretário presentes.
Hospital busca reorganização
Chavez afirmou que sua missão como interventor é reorganizar a gestão e criar condições para que o hospital volte a operar de forma sustentável.
“Precisamos colocar gestão técnica e tirar disputas políticas de dentro do hospital. Ele precisa funcionar para atender a população”, concluiu.
A expectativa da administração é conseguir regularizar o alvará sanitário nas próximas semanas e, a partir disso, iniciar uma nova etapa de reorganização financeira e administrativa da instituição.
A gestão do HCC está com a prefeitura desde 2029, quando o então prefeito Constantino Orsolin, decretou a intervenção.
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