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ARTIGO: Indústria Calçadista em Gramado: o caso Ortopé

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INDÚSTRIA CALÇADISTA EM GRAMADO: O CASO DA ORTOPÉ
 

Luana Wingert*

 

Horst Volk, fundador da indústria calçadista Ortopé, em entrevista, no ano de 2018, disse que a empresa de calçados criada pela família inicia com o nome de E.Volk & Filhos.  Afirma que a sua vinda “foi praticamente uma refundação de Gramado (…) deu um surto de progresso, quer dizer, foi o início de uma nova época em Gramado” (VOLK,2018). Ativa durante 50 anos e 3 meses, a Ortopé, impulsionou o surgimento de outras indústrias do ramo na cidade.

A proliferação de indústrias calçadistas é atestada pela historiografia local, em livro produzido pela Secretaria Municipal de Educação, em 1987, sob coordenação do secretário Germano Marcolino Blum, no qual é apontado que o setor calçadista foi o que mais se desenvolveu e que a cidade, à época, contava com muitas fábricas de calçados (BLUM, 1987, p. 45). Segundo Blum (1987), em 1985, a produção industrial representava 77,38% das riquezas produzidas pelo município, isto é, Cz$ 271.212.973,05 de um total de Cz$ 390.099.692,97. Por sua vez, o calçado, especificamente, gerou, sozinho, Cz$ 151.333.006,55, ou seja, quase 60% de toda produção industrial, o que, por outro lado, também representava quase 40% de toda riqueza anual do município. Segundo Volk, em dados apresentados pela própria prefeitura na época, mostravam que a Ortopé durante um longo período foi a empresa que mais contribuiu com o retorno de ICMS no município, mantendo uma média de 70% e  recorda-se que em determinado mês chegaram ao ápice de 83%.

 Os primórdios da Ortopé estão em Sapiranga, onde os pais de Horst Volk possuíam uma fábrica em sociedade. Em Gramado, instalaram-se no ano de 1952, trazendo quatro pessoas. A família e essas pessoas que ensinaram os funcionários pois eram profissionais.De início, este foi o grande problema que encontraram, pois toda mão de obra teve que ser ensinada, o aprendizado todo teve que ser feito. Acreditaram que viriam pra cá com uma mão de obra mais barata mas não foi o que aconteceu; tiveram um custo muito grande de aprendizado(VOLK, 2018).

O pai de Horst faleceu no ano de 1959, época difícil para ele e os irmãos pois tiveram que assumir a empresa, aprender tudo o que ele sabia, buscar crédito e ressalta que não perdeu apenas o pai mas também o chefe que estava à frente da empresa.

No início, tinham 20 funcionários, que faziam em média 200 pares por dia. Tinham que fazer com muito cuidado porque as pessoas estavam aprendendo. A parte da montagem foi ensinada por Werno Wingert e a parte do corte por Valdemar Weber, ambos vindo de Sapiranga com a família Volk. Essas pessoas que foram os contra mestres, como se chamava na época, que hoje são chamados de supervisores.

Com a empresa na cidade, os jovens começaram a se fixar aqui e não precisaram ir a outro lugar em busca de oportunidade. No interior também começaram a vim as famílias para trabalhar na fábrica. Ou seja, cessaram as migrações de gramadenses para outras cidades e intensificou-se o processo de êxodo rural em direção à zona urbana. Certo período em que até faltou mão de obra aqui da cidade vinham pessoas de Canela, São Francisco e até Dois Irmãos trabalhar na fábrica.

Horst Volk cita a importância da vinda da empresa para a demanda de outras atividades e relata que a vinda da mesma, além de tornar os colonos operários, também foi responsável por gerar demandas de outros tipos de empregos:

 

No momento que a Ortopé começou a crescer foi se criando outra atividade também, os colonos vieram com os filhos pra cá, muitos vieram só os filhos, mas de qualquer maneira eles foram melhorando, e já começaram a ter empregadas, tinham filhos pequenos, os dois trabalhavam na fábrica, precisavam de empregada, ou precisavam de jardineiro. (VOLK,2018).

 

A partir de 1954, após sociedade com a família Balzaretti, a empresa recebe o nome de Calçados Princesinha Ltda, tornando-se, posteriormente, Calçados Ortopé.    

Quanto à infraestrutura e aos meios de produção, no início, tinham as máquinas que existiam no mercado, pois nem pensavam em importar máquinas naquela época. Até se importava algumas máquinas mas aí a empresa já devia ser muito bem capitalizada, o que não era o caso deles. Seu pai havia comprado máquinas de segunda mão, que era mais barato, as quais eram máquinas com muito barulho ainda. Onde construíram a fábrica não tinham energia elétrica e tiveram que trabalhar com motor a gasolina durante dois anos, o que gerou certa dificuldade em modernizar a fábrica, lhes travou muito o progresso. “Não se colocou à disposição aquelas promessas todas que tinham sido feitas pra ele vir a Gramado, deixando meu pai aborrecido” (VOLK,2018).

Volk sobre o questionamento se houve ou não incentivo do governo estadual ou federal para a implantação da indústria em Gramada declara:

 

No começo não houve nenhum incentivo, tinha um banco aqui que descontava os títulos, adiantava dinheiro, funcionou muito bem. Mas no início não conseguimos pagar nossas contas todas com aquelas promessas que fizeram pra nós vir pra cá, e aí tivemos dificuldades financeiras por isso aceitamos um sócio aqui a família Balzaretti, assim trabalhamos juntos, a sociedade durou até termos um novo sócio mais tarde, porque nós queríamos crescer. (VOLK,2018)

 

No que se refere ao produto, sempre fabricaram sapatos para crianças e sempre de couro, procurando o melhor para o conforto da criança, que devia ter um andar correto e sentir-se bem dentro do calçado. Tiveram um grande sucesso na empresa quando introduziram em 1963 uma botinha anatômica, idéia que surgiu pelo fato de seu filho Paulo começar a caminhar mais tarde  e tê-lo levado a um ortopedista que disse que ele tinha o pé chato e deveria usar uma botinha. Na loja que havia disponível para a compra a botinha era dura então resolveu criar uma que “possuía uma forma especial, com couros mais macios. Fizeram propaganda da botinha que funcionava diretamente para a educação do pé da criança, era um sapatinho preventivo, ele prevenia eventuais defeitos futuros no pé” (VOLK,2018). Buscava-se, assim, um sapato moderno para uma cidade moderna.

Em 1966 a empresa passa a se chamar Calçados Ortopé e neste mesmo ano teve outro grande sucesso, que foi quando quando criaram a sandália anatômica, que tinha uma palmilha com a contraposição do pé,  semelhante à  botinha, só que a da botinha a palmilha tinha um pouco de espuma, um pouco de látex, ela não era ainda uma contraposição do pé mais dura, mais firme, aí foi lançada a sandália anatômica com uma palmilha feita de cortiça, técnica reproduzida na Alemanha e introduzida e aperfeiçoada  por Volk no Brasil. Ele foi até a Alemanha , contratou um técnico alemão que fazia essa palmilha e o mesmo ficou aqui na cidade durante um ano. Foi também até Portugal onde faziam a cortiça. Compraram máquinas da Alemanha e faziam o processo de fabricação exatamente como era la, mas desenvolveu a sandália e um design próprio do Brasil, porque na Alemanha o estilo de calçados era mais fechado pelo fato de ser mais frio, faz o aperfeiçoamento mas sem deixar de ser confortável que era uma das coisas de que não abria mão.

No ano de 1973, a  família Volk recebe uma visita de uma empresa alemã, Elefanten Schue,  uma das maiores produtoras de calçados da Alemanha, onde firmam uma sociedade que dura sete anos e que foi positiva para o crescimento da Ortopé.

Macadar, Macadar (2013) confirmam este sucesso da empresa no ramo infantil:

 

[…] a empresa Calçados Ortopé consolidou-se na década de 1980 como a maior produtora de calçados infantis, figurando como uma empresa de grande porte no ramo calçadista brasileiro. (MACADAR; MACADAR, 2013, p. 202)

 

Cita também em números este sucesso na década de 90:

 

No Brasil, a empresa Ortopé alcançou a liderança deste segmento, perfazendo em meados da década de 90 uma fatia de mercado de aproximadamente 30%, fabricando as marcas Ortopé, Batman e Infantus. O público-alvo para este tipo de calçado estava estimado em cerca de 8 milhões de crianças, em 1995. (MACADAR; MACADAR, 2013, p. 202)

 

Segundo dados apresentados por Macadar e Macadar (2013), na forma de duas tabelas, em meados dos anos 90, a empresa Ortopé era a quinta empresa brasileira do ramo calçadista que mais faturava, atrás apenas da Azaleia, dois ramos da Grendene e da Vulcabrás. No mesmo período, os autores mostram que a empresa possuía uma capacidade produtiva de 11, 5 milhões de pares ao ano, constituindo a sexta maior produtora do Brasil. Por outro lado, comparando a produção de pares ao dia, a Ortopé ficava em primeiro lugar, com 22500, o que representava 38,8%.

Sobre o impacto deste auge na cidade Volk (2018) declara que Gramado ganhou muito na área de turismo por causa da Ortopé, ele acreditava que tudo podia ser desenvolvido através de um chamado, de um convite.. Em toda caixa de sapato, e eram milhões, havia nos fundos um convite dizendo “Visite Gramado: a mais bela cidade do Rio Grande do Sul”. Assim, vários visitantes eram atraídos  e diversos hotéis começaram a surgir na cidade.Fizeram uma ampla divulgação e iniciaram as propagandas na televisão, onde Ferrugem cria a propaganda que faz com que a empresa ganhe o prêmio de melhor propaganda do Brasil.

Nos últimos anos de atividades, a Ortopé teve 3 mil funcionários diretos e mais 1.500 de empresas terceirizadas, então, ao todo, 4.500 funcionários. Chegaram a fazer até 70.000 pares de calçados por dia. Empregaram nestes 50 anos mais de 14 mil funcionários, ou seja, quase metade da cidade vivia da Ortopé.

Horst Volk (2018) cita as consequências do plano real e o início da queda no ramo calçadista:

 

Os americanos vieram comprar sapato aqui em 1970 e pararam de comprar em 1994 quando começou a ter o plano real e aí as exportações de calçados começaram a ficar muito ruim (VOLK,2018).

 

Macadar, Macadar (2013) atestam isso também:

 

A liderança de mercado da Ortopé sofreu duras perdas no final da década de 90. Após a implantação do Plano Real, e com a abertura das importações de produtos asiáticos, o ambiente competitivo se transformou significativamente num curto espaço de tempo, alterando o padrão competitivo vigente na indústria. (MACADAR; MACADAR, 2013, p. 202)

 

Após a empresa decretar falência, em 2007, o valor de aquisição da marca, fábrica e maquinário em leilão, chegou a ser avaliado por peritos da UFRGS em R$ 27,4 milhões, sendo R$ 21,68 milhões relativos somente ao valor da marca. Em novembro de 2007, o grupo Paquetá arrematou a marca Ortopé pelo valor de R$ 15 milhões e a Justiça do Trabalho de Gramado deu por encerrado o processo de venda. (MACADAR; MACADAR, 2013, p. 204).

Volk (2018) encerra dizendo que é um homem feliz e que todo este período da empresa Ortopé valeu a pena. Além da empresa ele cria três eventos: o Festival de Cinema de Gramado, a Fearte e o Festival Nacional de Publicidade, pois via a necessidade não apenas de o turista vir a Gramado mas ter atrações para se manter por mais dias. Muitos empresários da cidade trabalharam no passado na fábrica e acredita que de certa forma espelharam-se nele o espírito empreendedor. Obteve sucesso nas questões econômicas e também sociais. Auxiliaram a cidade em ações como a construção de uma igreja, festas da comunidade, transporte de estudantes, em incêndios, levava de Kombi crianças doentes, filhos de funcionários a Caxias para consultas, enfim, ajudavam em várias situações que na época o município tinha carência .Horst sente-se satisfeito pela grande importância e influência que a sua empresa teve para o desenvolvimento e progresso da cidade de Gramado que é conhecida hoje mundialmente.

 

 

REFERÊNCIAS

BLUM, Germano Marcolino (Org.). Gramado Simplesmente Gramado. Gramado: Secretaria Municipal de Educação, 1987.

 

MACADAR, Jaime Adrian Moron. MACADAR, Beky Moron de. Proposta de um modelo de análise do valor de ativos estratégicos. REBRAE. Revista Brasileira de Estratégia (Impresso), v. 6, p. 193-209, 2013.

 

VOLK, Horst Ernst. (85 anos). Horst Ernst Volk: depoimento. Entrevistador: Luana Wingert. Gramado, outubro, 2018.

 

 

*Artigo produzido após entrevista realizada em 19 de outubro de 2018 para o curso de História da Faccat. Luana Wingert foi responsável pela pesquisa do caso Ortopé, que integrou o artigo ‘Indústrias Calçadistas no Rio Grande do Sul’. Luana Wingert formou em História pela Faccat em dezembro de 2018.

 

 

3 COMENTÁRIOS

  1. Um grande legado deixa a Ortopé para Gramado, Rio Grande do Sul e para todas as crianças do Brasil, que tiveram a felicidade de usar Calçados Ortopé!

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